quarta-feira, 5 de março de 2008

Pela arbitragem e pela verdade desportiva

Numa época trágica, em termos do desempenho do Sporting na I Liga, a má arbitragem de Paulo Paraty, em Alvalade, que deixou a equipa de Paulo Bento longe da Liga dos Campeões, ressuscitou as queixas de alguns sectores do clube leonino face à arbitragem nacional. Digo de alguns sectores porque ainda não ouvimos ninguém da SAD do futebol do Sporting dizer que o árbitro Paulo Paraty prejudicou gravemente o clube – ele que, em 2005, na Luz, também prejudicara os “leões”, ao fazer vista grossa a uma falta de Luisão sobre Ricardo, oferecendo ao Benfica o seu único título nacional dos últimos 14 anos, isto numa temporada em que os homens do apito se revelaram especialmente generosos em relação ao clube de Eusébio, Mantorras e Luís Filipe Vieira.
As críticas de Paulo Bento – sempre ele a dar a cara pelo colectivo leonino, indo para além das suas responsabilidades… – e de Miguel Salema Garção – um funcionário que não tem culpa de não ter peso institucional, nem de não estar legitimado pelo voto dos associados ou dos accionistas do Sporting – acabaram por ser ainda menos ouvidas que os silêncios de Filipe Soares Franco ou Miguel Ribeiro Teles. Mas será que os dois mais altos dirigentes do futebol leonino teriam algo de muito importante para dizer à nação sportinguista e ao País do futebol?...
O Sporting está numa fase da temporada muito sensível. Apesar do seu futebol depressivo, resultante de uma época mal planeada, ainda foi possível aguentar “os cacos” – a expressão é do vice-presidente José Eduardo Betencourt – em várias frentes: o Sporting tem uma página a escrever na Taça UEFA 2007-2008, está na final da novel Taça da Liga e pode chegar à final e vencer a Taça de Portugal. Perdido está o campeonato nacional. E nem o segundo lugar – perdido em dois jogos que o Sporting não conseguiu ganhar ao Benfica por acção dos árbitros – iria apagar a frustração dos sportinguistas.
O que deve então fazer o Sporting em mais esta cruzada contra a arbitragem? A questão é muito simples: se não tomar uma posição bem estruturada e consequente, o melhor será deixar tudo como está. Ou seja, deixar que aqueles que agora andam a correr para o tribunal, por causa do processo “Apito Dourado”, continuem a decidir os campeonatos jornada a jornada, dando, pelo meio, uns “rebuçados” ao Sporting, para que em Alvalade não levantem muitas ondas. Tem sido assim anos a fio. Os sportinguistas queixam-se da última arbitragem com o Benfica, mas logo os adversários lembram que, dias antes, o Sporting foi apurado para a meia-final da Taça de Portugal à custa de um golo marcado a partir de uma posição ilegal
O Sporting precisa, urgentemente, de fintar o “sistema” e de conquistar a opinião pública portuguesa, encetando uma grande cruzada em nome da qualificação da arbitragem e da verdade desportiva no nosso futebol. Independentemente de medidas a defender no âmbito da arbitragem, eis algumas coisas elementares a ponderar pelos responsáveis leoninos:
1. Fazer um levantamento exaustivo e devidamente enquadrado no tempo dos prejuízos e benefícios do Sporting, do FC Porto e do Benfica nas últimas cinco temporadas, divulgando-o publicamente, através da comunicação social e de todos os meios de comunicação ao alcance do clube, nomeadamente o sítio oficial na Internet.
2. Defender a obrigatoriedade de as equipas de arbitragem se apresentarem nas conferências de imprensa após os jogos, à semelhança do que acontece com os treinadores, de modo a justificarem publicamente as suas decisões.
3. Defender a livre circulação de imagens dos jogos de futebol entre estações de televisão, mediante regras a estabelecer, para que os vários canais tenham acesso a todos os lances de um jogo que pretendem transmitir ou comentar, para acabar com o que acontece actualmente, em que as equipas de jornalismo da RTP, da SIC ou da TVI, por exemplo, só têm acesso às imagens contidas nos resumos realizados por opção editorial da Sport TV, a empresa proprietária das imagens.
4. O conselho de administração do futebol Sporting deveria assumir a tarefa de denunciar publicamente todos os casos de má arbitragem, designadamente quando é grosseiramente prejudicado, admitindo, sem hesitação, as situações em que é beneficiado, excluindo os treinadores e os jogadores da “necessidade” de comentar o trabalho dos árbitros.
5. Finalmente, é tempo de o Sporting deixar de considerar que o livro de Carolina Salgado é obra sem interesse e de tomar uma posição firme e decidida sobre o “Apito Dourado” – e suas consequências para o Sporting, não nos últimos cinco anos, mas nas últimas duas décadas – e sobre a inoperância da justiça portuguesa (afinal, o problema da corrupção no futebol era coisa do Gondomar e pouco mais...) e a brincadeira que é a justiça desportiva, tanto na Liga de Clubes como na Federação Portuguesa de Futebol.
Se houver coragem para defender o Sporting Clube de Portugal, tornando-o tão grande como os maiores da Europa, haverá coragem para seguir este caminho. É evidente que é um caminho difícil. Mas é difícil ter sucesso estando bem com Deus e com o Diabo. A verdade é que o Sporting tem de fazer alguma coisa para eliminar aquilo que pode ser classificado como um comportamento de enguia no que concerne à arbitragem.
Nesta matéria, o histórico dos dirigentes leoninos não é, de facto, recomendável: ora assobiam para o lado quando está em causa o “Apito Dourado”, ora saem à rua numa gritaria inconsequente, ora ficam escondidos num estranho silêncio depois de terem sido roubados à vista de toda a gente, ora pedem para repetir um jogo com base na argumentação jurídica mais obtusa, ora decretam um patético luto pela arbitragem, ora calam e consentem situações de claro benefício, para gáudio do "sistema". Em resumo, o Sporting precisa de escolher um caminho e de ser consequente, de modo a ganhar a batalha da credibilidade. Só assim a sua voz será ouvida e respeitada no futebol português.

9 comentários:

Jonix disse...

Com este presidente duvido. É cereja podre na árvore e enquanto lá estiver, o 5º lugar para nós é "uma sorte". O sr. presidente só é grande no tamanho, no resto não é grande coisa!

Gouveia disse...

Leão,

Grandissimo post! Responsável, Certeiro, Conciso, Corajoso. Numa palavra: À SPORTING!

Mas estou certo que esta gentalha que está actualmente aos comandos do nosso SCP não tem nem Coragem, nem Competência, nem mesmo Interesse em concretizar as medidas que propões!

Melhores tempos virão... e que venham rápido!

Saudações Leoninas

SCP Sempre! disse...

Para reflexão dos sportinguistas, trago aqui, com a devida vénia, a opinião do ex-árbitro José Leirós, do Porto, escrita no blog BOLA NA ÁREA, a propósito das decisões de Paulo Paraty em Alvalade:
"Decidiu bem não assinalar duas grandes penalidades; uma quando a bola toca na mão/braço de Miguel Veloso no remate de Cardoso depois de ressaltar/tocar na perna. A outra quando Purovic deixou-se cair para trás sobre Katsouranis
Decidiu bem expulsar Nelson. A entrada em tacle como Nelson fez sobre Celsinho está reconhecida na decisão quatro da lei doze que deve ser punida com cartão vermelho por brutalidade.
Decidiu mal ao trocar o cartão vermelho por um amarelo a Katsouranis que em conduta violenta atingiu Moutinho. Ficou por exibir o cartão vermelho a Cardozo, que com o cotovelo atingiu Tonel no peito e no queixo. Só com ajuda da tecnologia é que a equipa de arbitragem poderia ter feito justiça, Mas recordo que não há nem grandes nem pequenas agressões, muito menos existe intensidade. O que a Lei diz é que quem agredir ou tentar agredir deve ser expulso.
Por ultimo, grande penalidade por assinalar favorável ao Sporting CP. Leo rasteirou e derrubou Vukcevic, com Paraty perto da jogada, não sendo possível explicar, porquê que, cometeu tal erro."

não à alienação do estádio e da academia disse...

um dos melhores posts dos últimos tempos. parabéns!

Mário Fernandes disse...

Caro LE,

O Sporting não precisa de fintar o sistema. O Sporting com a força de todos os Sportinguistas, tem de enfrentã-lo de frente e sem qualquer tipo de medo. Concordo plenamente com o ponto em que apela a uma análise exaustiva e coerente dos erros de arbitragem nas últimas épocas. Já alguém se interrogou por que razão nenhuma
televisão tenha promovido um programa deste tipo, já que o êxito de audiência estaria assegurado à partida???

A. Tento disse...

Fintar o sistema?
Ora ora. O Franco transformou o Sporting da luta contra o sistema, que ele sempre sabotou como se percebeu pelo comentário irresponsável ao roubo do Paraty na Luz que nos tirou o campeonato de 2005, em Sporting da aliança com o sistema.
Calados com o Paraty, agora caladinhos com o Lucílio para Guimarães, são os acagaçados do costume nas reverências ao major e ao PC que continuam a ser o sistema.
A propósito: houve tempos em que no Sporting se fazia semanalmente o inventário dos erros dos árbitros para azia de muita gente, até dos sistemáticos infiltrados no clube. Agora é o que se sabe. Depois queixam-se do Rui Santos.
PS: Parabéns pelo excelente post.

Maria de Castro disse...

Li, com o maior interesse o seu artigo sobre as "Arbitragens e a ( falta de...) Verdade Desportiva". É bom para o Sporting contar com o seu entusiasmo, o seu dinamismo ,a sua dedicação e devoção ao clube.

Continue : o Sporting agradece.

Vamos todos ajudar o nosso orgulhoso leão a erguer de novo a juba.

Maria de Castro

Manuel dos Santos disse...

Caro Leão da Estrela.

Muitos parabéns pelo excelente post que escreveu.
É de dificil aplicação, num país futebolistico que espera pelas eventuais punições na justiça civil (e que demoram anos) para ponderar eventuais punições desportivas (isto mesmo foi recentemente dito pelo inenarrável Gilberto Madaíl a propósito do apito dourado), e com uns pseudo-dirigentes do Sporting que dirigem em part-time ao fim do dia aproveitando a viagem do trabalho para casa.

Dina disse...

Hoje no jogo Benfica-Getafe Cardozo foi expulso devido a um lance muito parecido ao do jogo com o Sporting...e o árbitro nem hesitou. Claro que não era o Paraty nem era português...

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