Big Mal fez 83 anos internado, após uma vida de excessos. Em Portugal, os excessos incluíram Liga e Taça no Sporting.
Com o Campeonato Nacional e a Taça de Portugal 1980-81 entregues ao Benfica e sem estaleca para a Taça dos Campeões, o Sporting começou cedo a preparar a época seguinte. Bem ao seu estilo, o presidente João Rocha queria um avançado e um treinador. Para o primeiro objectivo foi ao FC Porto buscar o virtuoso Oliveira para juntar à dupla Manuel Fernandes-Jordão. Já o treinador não foi tão fácil. José Maria Pedroto foi sondado, mas preferiu o Vitória Guimarães. Viria Malcolm Allison.
É nessa memorável época de 1981-82 que o Sporting enche o país de verde e branco. À conta de vitórias e bom futebol. O excêntrico Malcolm Allison entra em cena e tem uma equipa de luxo à sua disposição. Além de Oliveira, ex-FC Porto, e Meszaros, guarda-redes húngaro para o lugar de Vaz, chegam Melo, Venâncio, Nogueira, Virgílio e Alberto.
O Sporting começa por empatar 2-2 em casa com o Belenenses de Artur Jorge, num jogo com cinco expulsões (4-1 para os azuis). Seguem-se cinco vitórias consecutivas, ciclo travado por Boavista (3-3) e Benfica (1-1). No final da primeira volta, o Sporting continuava invicto, com quatro pontos de avanço sobre o Benfica e cinco sobre o FC Porto.
Em Março, o Sporting bate o Benfica em Alvalade por 3-1, num encontro em que o brasileiro Jorge Gomes, o primeiro estrangeiro de sempre nos encarnados, acusa o árbitro Marques Pires. "Ele é que devia ir ao controlo antidoping. Um homem no seu estado normal não faz aquelas coisas!" O título não era uma miragem e tornou-se realidade a três jornadas do fim, no Estoril. Só faltava Jordão ser o melhor marcador. Mas o portista Jacques tirou-lhe o título na derradeira jornada, em que os dois se defrontaram nas Antas (2-0 para os dragões, com um golo de Jacques).
A festa continua na Taça, uma semana mais tarde, com um inequívoco 4-0 sobre o Braga, na tarde em que Quinito, treinador do bracarenses, se apresentou no Jamor de fraque creme e laço castanho. Na hora de receber o troféu, Manuel Fernandes despiu a camisola 9, deu-a ao presidente João Rocha e foi de tronco nu para a tribuna de honra, onde estava Ramalho Eanes com a Taça. É a quinta dobradinha na história do Sporting! O mérito é de todos e de Allison, o treinador inglês que nunca mais ganhou nada a partir daí. Big Mal, como lhe chamam, fez ontem 83 anos. Está internado num lar de idosos, com doença de Alzheimer, mas é um homem que continua no coração dos sportinguistas.
Por isso, o "i" falou com quatro jogadores para ouvir histórias de outros tempos. Tempos de glória, lá para os lados de Alvalade.
MESZAROS, O REFORÇO PARA A BALIZA
"Devo-lhe muito. Ele é que me contratou para o Sporting. E para o V. Setúbal [1987-88]. Há um pormenor de que nunca me esquecerei: num jogo da Taça, em casa, com o Boavista, estávamos a perder 2-1 ao intervalo. Nós, jogadores, estávamos no balneário, ele abre a porta e só nos diz isto: ''Se quiserem ganhar, passem a bola ao Mário Jorge.'' Depois saiu e bateu com a porta. Ficámos todos a olhar uns para os outros. Na segunda parte, o Mário Jorge fez a jogada do 2-2 para o Manuel Fernandes e foi derrubado na área, no lance de que resultou o penálti do 3-2, marcado pelo Oliveira."
EURICO, O PATRÃO DA DEFESA
EURICO, O PATRÃO DA DEFESA
"Há 29 anos acabaram-se os estágios. Allison chegou a Lisboa e deu-nos responsabilidade. Mas não se ficou por aí. Todos nós, jogadores, tínhamos direito a um copo de vinho, sempre servido por empregados à mesa, durante as refeições. Num dos primeiros almoços que tivemos nessa época, um empregado de mesa serviu-nos o vinho e ia levar a garrafa quando se ouviu o Allison a dizer: ''Deixe aí a garrafa!'' "
CARLOS XAVIER, O MIÚDO
CARLOS XAVIER, O MIÚDO
"De cada vez que jogávamos em Alvalade chegávamos ao estádio às 10h30 e almoçávamos a essa hora. O Malcolm Allison dizia-nos para comer à vontade: batatas, ovos, carne, peixe, massa. Era só escolher. Até ao jogo, ficávamos lá no estádio à espera de entrar em campo. Quando íamos a caminho do relvado já estávamos em pele de galinha, porque o Allison entrava em campo antes de nós e era um espectáculo dentro do próprio espectáculo. Dava a volta ao campo com o braço no ar a segurar o inconfundível chapéu. Os adeptos deliravam e nós também. Houve uma altura em que até havia música ao vivo e se tocava o "Comanchero". O estádio ia abaixo. Nunca o ouvi berrar. Nem nos treinos. Quando eu cometia um erro, aproximava-se e segredava-me qualquer coisa como ''não me lixes'', como quem diz: ''não sejas assim, tão apático, és capaz de muito melhor.'' "
MANUEL FERNANDES, O CAPITÃO
MANUEL FERNANDES, O CAPITÃO
"Dois dias depois de ganharmos a Taça, jogámos com o PSV Eindhoven em Paris. Na véspera, à noite, Allison concentrou os jogadores no hall do hotel e começou a falar das aventuras em Inglaterra. A conversa, animada como sempre, durou das 23 às duas da manhã. A essa hora, eu, como capitão, sugeri que fôssemos para a cama. Ele virou-se para mim: ''Fomos campeões, vencemos a Taça e vamos dormir? Nada disso. Vamos todos sair para Paris.'' E lá fomos, todos nós, aos bares e aos cabarés de Paris, àqueles mais conhecidos e tudo, como o Lido. Foi uma noite-manhã inesquecível. Aliás, essa sintonia de grupo já vinha de Agosto do ano anterior [1981], quando o Allison chegou a Lisboa. Dizia-nos para almoçarmos, jantarmos, cearmos ou sairmos à noite, mas sempre na véspera da folga. Como esse dia calhava à terça-feira, o plantel do Sporting, formado por 20/25 jogadores, começou a sair à segunda. Às vezes encontrávamo-nos ao almoço, ficávamos no restaurante até ao jantar e depois ainda íamos dançar até não aguentar mais. A essas noitadas o Malcolm nunca foi. Só mesmo a de Paris e por isso é que foi tão inesquecível. Porque fechou uma época de ouro no Sporting."
FONTE: Jornal "i", 06-09-2010
9 comentários:
Uma correcção: o Oliveira não veio do Porto para o Sporting, veio do Penafiel. Tinha saído do Porto em 1980 em litígio com o presidente (Américo Sá) depois daquilo a que eles chamaram "Verão quente das Antas" (o Sá substituiu o Pinto da Costa por outro fulano no Dep. Futebol e o Pedroto demitiu-se em protesto) . O regulamento de transferência à época era bizarro e permitiu ao Oliveira rescindir com o Porto e aparecer depois no Penafiel, como jogador-treinador. E um ano depois nós pescámo-lo. Era um jogador genial!
Quanto ao Allison, a sua carreira em Inglaterra teve muito altos e baixos (a partir de certa altura, mais baixos que altos) devido à sua personalidade imprevisível. Os seus maiores sucessos foram como adjunto de Joe Mercer no Manchester City nos anos 60/70 (em poucos anos foram campeões e venceram a Taça de Inglaterra, a Taça da Liga e a Taça das Taças. Quando de lá saíu (já era o treinador principal) levou o Crystal Palace da 1ª à 3ª divisão em dois anos. Por cá reabilitou-se.
Abraços
Outros tempos, outra loiça. Um abraço
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Falta o nome da pessoa que tornou tudo isto possível. Que fez do Sporting um clube ganhador, respeitado e com mais de 100 mil sócios na hora em que saíu do clube por questões de saúde: JOÃO ROCHA.
Quando se fará justiça a este homem que dotou o Sporting dum enorme património físico e desportino que a gestão Roquete, Dias da Cunha, Soares Franco e o bancário hoje empregado do Sporting, desbaratou em meia dúzia de anos?
Grande Big Mal. Um espectáculo dentro do espectáculo. Foi despedido logo após essas conquistas como tantos outros treinadores nossos que foram campeões. Sempre me interroguei PORQUÊ??? Belos tempos. Aquela final da Taça é inesquecível.
ULISSES
Mesmo com aqueles excessos todos, o Sporting vencia...agora, com centros de estágio e todas as condições e exigências, o Sporting é aquilo que se sabe...conclusão a tirar, a qualidade da massa humana é que também é (decisivamente) diferente...a que joga dentro do campo e a outra que joga nos bastidores. Porventura, especialmente esta...
Sou lampião e gostava que a rivalidade entre os clubes de Lisboa fosse mais saudável. Nessa altura os dois clubes tinham presidentes que honravam esse estatuto, outros tempos outros valores. Nem o Pintinho fazia farinha com os presidentes dos 2 grandes de Lisboa. Depois só vieram oportunistas e parasitas para o SCP e SLB. Entretanto de há 25 anos para cá o futebol tuga parece o Ultimate Fighting nas jaulas, vale tudo menos arrancar olhos para se ganhar.
Alguém da geração de 70.
O Sr. Jorge Teixeira ou fala do que não sabe, pelo menos suficientemente, ou está a querer atirar areia para os olhos. O Sr. alguma vez ouviu falar da SCP, Sociedade de Construções e Planeamento?...Sabe o que isso era no projecto que foi prometido aos sócios e que nunca foi tornado realidade? Sabe quem era o mentor e o obreiro desse projecto ambicioso que deveria, segundo a propaganda, tornar o Sporting o maior clube português e um dos maiores do mundo e que nunca chegou a sair do papel e das promessas que já vêm de longe?...Dotou o Sporting de um enorme património desportivo?...Ora diga lá qual foi, se faz favor, que devo estar um bocado esquecido...
Que saudades de Malcolm Allison e da sua grande equipa, em que Oliveira, JORDÃO e Manuel Fernandes eram o expoenntes máximos.
O Jorge Teixeira disse e muito bem, João Rocha foi o ultimo grande presidente do Sporting.
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