sábado, 18 de setembro de 2010

Memórias do "leão" Artur, o ruço do Benfica

Setúbal, 25 de Setembro de 1977: Artur vai cortar um lance, sob o olhar do "capitão", Laranjeira, e de Jordão. FOTO: Nuno Ferrari (ASF)
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A impetuosidade era a sua imagem de marca. Constantemente insatisfeito, através de gestos e atitudes, o ruço tem uma carreira ímpar no futebol português. Foi o lateral-direito da selecção durante a década 70 (Maio-72 a Novembro-79), totalizando 35 jogos, e de três clubes com grande tradição: Académica, Benfica e Sporting.
A sua história, porém, não é como outras. Campeão nacional de juniores no Benfica, com Humberto Coelho, Toni, Vítor Martins e Nené, quis tirar o curso de Medicina, o que o obrigou a uma transferência para a Académica. Lá passou três boas épocas até perceber que era impossível conciliar estudos e futebol. Optou pela bola e voltou ao Benfica, em 1971. Seis anos depois, o primeiro grande susto, vítima de uma pleurisia. Afastado dos relvados e com o Benfica em digressão, não lhe renovaram o contrato. Sensível a este episódio, João Rocha estendeu-lhe a mão e Artur passou para o outro lado da Segunda Circular.
Em 1980, no início da terceira época pelos leões (24 de Setembro), sofreu um acidente cardiovascular que lhe acabou com a carreira desportiva. No jogo de homenagem entre Benfica e Sporting, em 1981, Toni definiu-o da melhor forma: "No Sporting, era o único jogador à Benfica."

“Sou sócio do Benfica desde que nasci. Nunca pensei jogar naquela equipa [Sporting], mas o Benfica mandou-me embora. Na prática, foi assim. Durante seis anos [de 1971 a 1977] estive sempre a ganhar o mesmo: 34 contos por mês. Em 1974, o presidente Borges Coutinho prometeu-me 500 contos e uma festa de homenagem quando renovasse o contrato, em 1977. Ora em 1977 fomos campeões, com o Mortimore, e o Romão Martins [director-desportivo do Benfica] ofereceu-me uma festa de homenagem de 200 contos e 27 contos de ordenado. Onde é que já se viu passar de 34 para 27 contos? Como é possível baixar de ordenado? Ameacei com a saída e disseram-me que, como eu era benfiquista, nunca sairia. Mas estavam a empurrar-me para fora do meu clube e saí. O João Rocha apanhou-me descontente e fui parar ao outro lado da Segunda Circular.”

“[O primeiro jogo pelo Sporting foi com o Benfica], em Alvalade. Primeira jornada do campeonato nacional. Na altura a equipa visitante entrava primeiro em campo, depois os árbitros e no fim a equipa da casa. Quando entrei e vi aquelas camisolas vermelhas do outro lado fiquei confuso. E triste.”

“Quando o jogo começou voltei-me para [Chalana] e disse-lhe "não te ponhas para aí com coisas, que eu perco a cabeça e levas uma paulada", e ele responde-me "ó ruço, não há problema, estamos em família". Logo na primeira jogada passou-me a bola entre as pernas. Era a pior coisa que me podiam fazer. Depois [aos 8''] há um canto e... golo do Benfica, foi o Chalana de cabeça. Voltei-me para ele e disse-lhe "agora estás tramado" e o Chalana só me dizia "ó ruço, foi sem querer, a bola bateu-me na cabeça..." E por acaso tinha sido. Mas o Fraguito empatou [aos 20''] e ninguém perdeu.”

“Nessa primeira época [1977-1978], ganhámos a Taça de Portugal ao FC Porto. No campeonato ficámos em terceiro. Quando cheguei ao Sporting o treinador era um brasileiro que apareceu por aí e saiu logo em Dezembro. Chamava-se Paulo Emílio. Certo dia [20 de Novembro de 1977], fomos jogar ao Norte, estava o Riopele [de Pousada de Saramagos, no concelho de Famalicão] na I Divisão, e ele, o treinador, quis levar a mulher a conhecer o Minho. Na manhã do jogo o treinador não apareceu. Almoçámos e nada do treinador. Fomos para o jogo e ele continua desaparecido em combate. O Manuel Marques, chefe do Departamento de Futebol, lá me disse para orientar a equipa. Ao intervalo estávamos a perder 2-1. Fiz uma substituição [entrada de Baltasar e saída de Cerdeira] e ganhámos 3-2. No final do jogo apareceu o treinador com uma conversa do género: "Não há problema, eu sabia que vocês ganhavam." Fez uma brincadeira igual na Madeira [4-0 ao Marítimo, na semana seguinte, a 27 de Novembro]. Acabou por sair no Natal.”

“[Em 1979-1980], foi um campeonato tramado, resolvido por um autogolo do Manaca, em Guimarães. Falou-se muito desse golo porque Manaca tinha sido do Sporting, mas foi um autogolo. Meteu mal a cabeça à bola, pronto. Se não fosse ele, estava lá o Manuel Fernandes atrás dele para marcar. Nessa época, Sporting e FC Porto andaram pegados o tempo todo e aquilo eram finais todas as semanas. Dessa vez o Benfica andava longe do poder. A três jornadas do fim fomos jogar às Antas e empatámos 1-1, mas o António Garrido fez das suas. Marcou um penálti inexistente. Disse-lhe logo que tinha arranjado um emprego para toda a vida. Depois mandou repetir esse penálti duas vezes até a bola entrar. Foi um abuso.”

“Sabes o que eu fazia sempre que chegava o intervalo do Sporting? Perguntava ao roupeiro: "Olha lá, pá, como é que está o Benfica?" Ninguém no Sporting me levava a mal. Nem na Académica [1969-71]. Eu sou do Benfica, e eles sabiam.”

“[Jimmy Hagan] era tramado. Mas bom treinador. Naquele tempo os jogadores só ganhavam o prémio de jogo na totalidade se jogassem. Ora podíamos estar a ganhar por 6-0, com duas substituições por fazer, o pessoal no banco a pedir "Ó mister, dá para entrar?", e ele nada. No balneário nem ai nem ui. E era terrível nos treinos. Já com a idade que tinha, fazia todos os exercícios que nos mandava fazer. Fartava-se de puxar por nós, a correr à volta do relvado.”

“Em Março de 1974, no último dérbi pré-revolucionário, ganhámos 5-3 em Alvalade, mas nem imaginas a arbitragem do Raul Nazaré nesse dia! Marcou-nos dois penáltis. Ao primeiro, a castigar falta inexistente minha sobre o Dé, que se atirou para dentro da área, disse-lhe logo: não faças isso, Raúl, que nós vamos lá abaixo e marcamos dois golos. Dito e feito: de 2-3 para 2-5 foi num piscar de olhos.”

“[Em 1974-75, na Luz, apostei com o Yazalde um lanche. (…) Foi um jogo esquisito. O Móia, que nunca marcou um golo na vida, deu-nos avanço e foi o Yazalde quem empatou. No final, eu e o Chirola [alcunha de Yazalde] saímos juntos do estádio e levei-o a uma marisqueira em Benfica. Pelo caminho, uma série de adeptos: "Ó Artur, mas estás com esse porquê?'' E eu respondia: ''O jogo já acabou. Agora somos amigos."”

“Ou passava a bola ou o jogador, nunca os dois. Mas nunca aleijei ninguém. O maior problema eram os árbitros. Eu fazia “tackles”, roubava a bola e o árbitro não só assinalava falta defensiva como ainda me mostrava o cartão amarelo. E eu dizia-lhes: "Porra, mas tu não vês a final da Taça de Inglaterra?" Era dos poucos jogos que dava na televisão, a par da final da Taça dos Campeões. Mas a Taça de Inglaterra era um espectáculo e um encanto que só visto. Os mais fracos da III Divisão ganhavam aos da I e o jogo era sempre a correr, com muitos “tackles”, nunca punidos pelo árbitro. Só em Portugal é que aquilo era falta...”

Rui Tovar,
i, 18-09-2010

4 comentários:

GT Abarth disse...

"A três jornadas do fim fomos jogar às Antas e empatámos 1-1, mas o António Garrido fez das suas. Marcou um penálti inexistente. Disse-lhe logo que tinha arranjado um emprego para toda a vida. Depois mandou repetir esse penálti duas vezes até a bola entrar. Foi um abuso.”


Está tudo dito. LOL

Luis Magalhães Pereira disse...

Ainda me lembro dele naquela equipa com o Fraguito, o Botelho ( que jogava de camisola roxa), o Keita, Manoel, Jordão e Manel, Zezinho, etc...

Espectáculo de entrevista!

vaso disse...

Esse pulha garrido ainda por lá anda, no seu emprego vitalício.

Leão de Stª Engrácia disse...

Grande post !!! Estes sim, valem bem a pena ler.

Parabéns

(pelomeusportingcp.blogspot.com)

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