segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Damas: sofrer 5 golos e ser o melhor em campo

Quando Eusébio chega a Portugal, em Dezembro de 1960, o Sporting é o maior clube nacional e os 10-9 ao Benfica em matéria de títulos de campeão conferem essa (ligeira) superioridade. Quinze anos depois, com a saída de Eusébio, o futebol já não era o mesmo, e o Benfica goleava o rival por expressivo 21-14. Nesse período, a táctica era bem simples: por cada três títulos seguidos de campeão dos benfiquistas, o Sporting enchia-se de brio e interrompia a saga, que calhava sempre em ano de Mundial. Foi assim em 1966, 1970 e 1974. A leitura também pode ser feita ao contrário: quando o Sporting irritava o vizinho, eram três anos de jejum. E foi precisamente o que aconteceu em 1970.
Na época 1969-70, o Sporting só perdeu uma vez em 26 jornadas (0-3 em Coimbra) e foi campeão com oito pontos de avanço sobre o Benfica, segundo classificado - uma vantagem altamente dilatada e nunca antes vista entre os rivais da Segunda Circular. Na época seguinte (70-71), o Benfica foi campeão e pelo meio espezinhou o Sporting - invencível há 30 jogos para o campeonato, desde o tal atropelo em Coimbra -, com um concludente 5-1 na Luz, a 27 de Dezembro de 1970. Faz hoje 40 anos, portanto.
Eusébio abriu a conta aos 24 minutos e Artur Jorge aumentou a contagem aos 31'', na primeira parte. Após o intervalo, outro festival de golos, com Nené (50'') e Artur Jorge (57'' e 90'') a castigarem o guarda-redes leonino: Vítor Damas, de seu nome.
O que é de espantar neste dérbi não é o cabaz de Natal dos benfiquistas, nem o hat-trick de Artur Jorge. Concedemos, é meritório, mas o mais incrível destes 5-1 (estávamos tão empolgados com os golos do Benfica que nos esquecemos de mencionar o ponto de honra dos leões: José Carlos, de penálti, aos 70'') é que Damas foi eleito o melhor em campo pela imprensa desportiva, "A Bola" e "Record". Atenção que não é o melhor do Sporting, mas sim o melhor do jogo, de todos os jogadores em campo. E atenção que não foram 26, e sim 24, porque o Benfica de Jimmy Hagan não fez qualquer substituição (inglesises...).
Posto isto, é caso para perguntar como é possível sofrer cinco golos, nenhum deles de penálti, e ainda assim ser eleito o melhor em campo. Os laterais do Sporting têm a resposta na ponta da língua. O esquerdino Hilário, por exemplo, deu-se conta da evolução de Damas. "Acompanhei os treinos de captações, na Rua do Passadiço, em campos de basquetebol pelados. Os miúdos faziam torneios lá e o Damas foi por aí fora até ser meu colega de equipa. Lembro-me perfeitamente desse jogo na Luz, em que perdemos 5-1 e o Damas foi eleito o melhor em campo. Sem ele na baliza tínhamos levado muitos mais golos. Nesse dia, ele sofreu cinco golos mas fez milagres para evitar outros tantos."

"DAMAS ERA O HOMEM-ARANHA..."

Pedro Gomes também estava presente na Luz nessa tarde inglória, como defesa-direito, do lado oposto ao de Hilário. "Yashin era o Aranha Negra. Damas era o Homem-Aranha. Tinha elasticidade, impulsão e reflexos apuradíssimos. Era seu costume fazer defesas impossíveis. Aliás, os bons guarda-redes são aqueles que defendem as bolas de golo. Nesse jogo com o Benfica, os Eusébios, os Nenés, os Artures Jorge, os Jaimes Graça, os Simões vinham de todos os lados e nós nem sabíamos de que terra éramos. Às vezes um Benfica-Sporting dava nisto. E foi o Damas que evitou um resultado ainda mais dilatado. Ao ponto de ter sido eleito o melhor em campo. Pouco há a dizer quando se perde 5-1 e o elogiado é o guarda-redes!"
Pedro Gomes não quer ficar por aqui, puxa pela memória e continua a falar de Damas. "Além de tudo o que representava na baliza, o Damas era bastante bom com os pés. Nas peladinhas que fazíamos durante a semana, notava-se uma habilidade fora do comum para um guarda- -redes. Nos tempos que correm, Damas não teria qualquer dificuldade em jogar com os pés. Estava, portanto, avançado para o seu tempo. Aliás, sei que ele chegou como avançado nos treinos de captação do Sporting. Como era o mais novo, lá foi para a baliza. O Sporting e Portugal ganharam um guarda-redes!"
Queremos interromper outra vez mas Pedro Gomes continua no túnel do tempo. "Joguei com ele e também o treinei, na era-Toshack [84-85], quando eu era adjunto do John. Conheci-o bem e ele detestava perder. Até empatar! Uma vez empatámos com a Académica [4-4, a 20 de Janeiro de 1985], em Alvalade, e ele chegou ao balneário a dizer que não queria jogar mais. ''Diga isso ao Toshack'', disse-me ele zangadíssimo. Era um jogador inconstante quando as coisas não corriam bem à equipa. Tinha receio de ser cúmplice. Alguns minutos depois falei calmamente com ele e já estava tudo bem. Foi uma irritação do momento."


7 comentários:

lawrence disse...

Grande DAMAS!
Os meus respeitos!
Que descanse em muita Paz!

Anónimo disse...

Haja alguém dentro do Sporting que mostre ao Burrício filmes da época do grande Damas,para vêr se aprende a estar dentro e fora de uma baliza ,e lhe façam ver que tem que trabalhar muito mas mesmo muito, para ser considerado guarda redes, e não um apanha bolas de vez em quando.

Anónimo disse...

Infelizmente receio que nunca mais venhamos a ter um guarda redes assim...

Filipe Fernandes disse...

Palhaçadas

http://sportingsomosnos.blogspot.com/2010/12/palhacos-e-palhacadas.html

aNNóNNimo disse...

Eu estive lá, eu vi esses 5-1.

Não foram (muitos!) mais porque o Eusébio procurou dar bolas de golo a marcar ao Artur Jorge, o melhor marcador nessa época...

Também vi os 5-0 (só na 1ª parte!)para a Taça...!

Em comum o facto de o Victor Damas (com Bento os 2 melhores GR que vi jogar)ter feito defesas do outro mundo, evitando o avolumar de um resultado 'astronómico'

Anónimo disse...

Como benfiquista lembro-me, como um dos momentos mais emocionantes a que assisti num campo de futebol, ao minuto de silêncio em honra de Victor Damas, que por feliz acaso do destino aconteceu no Estádio da Luz a anteceder um SLB/SCP.
Naquela noite, o silêncio impertubável que se ouviu, honrou os benfiquistas e também o adversário de tantos jogos que era homenageado nesse dia.
Depois disso tenho assistido a tantas manifestações de ordinarice em situações semelhantes, em outros campos e com outras claques e mais me custa compreender o ódio que tantos sportinguistas (nem todos, eu sei) têm pelo rival da capital.
O SLB, como todas as organizações humanas, tem muitos defeitos, mas também consegue ter manifestações de grandeza como esta que eu recordo.

Desportimedia disse...

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