sábado, 29 de janeiro de 2011

Memórias do leão Mário Jorge

"Malcolm Allison ficou comigo
só para me ver passar a bola..."

Tudo começou com um desafio de um amigo que já estava no Sporting. Com 12 anos, Mário Jorge decidiu faltar às aulas para ir treinar ao Sporting. Ficou com uma falta na caderneta, mas garantiu o início de uma carreira com uma ligação quase exclusiva ao Sporting. Fez 22 golos em 263 jogos pelos leões e hoje, mais de 32 anos depois da estreia, continua a sofrer pelo Sporting. Em dia de Estoril-Sporting para a Taça da Liga, o "i" foi falar com o director desportivo dos canarinhos. Um jogador que participou na mítica goleada de 7-1 sobre o Benfica, em 1986 (ver foto). Nesse jogo, Manuel Fernandes brilhou com quatro golos, mas foi Mário Jorge a abrir o marcador: fez o 1-0 aos 15 minutos e o 4-1 aos 68.

A 12 de Setembro de 1979 estreou-se pela equipa sénior do Sporting num jogo contra o Estoril, apesar de ainda ser júnior. Como é que isso aconteceu?
Havia falta de jogadores e tiveram de recorrer aos juniores. E entrei nos últimos dez minutos para o lugar do Helinho. Foi bom para ter um contacto com o futebol profissional. Na altura não havia muitos jogadores juniores a ir à equipa principal e foi uma sensação indescritível.

O treinador Rodrigues Dias deu-lhe algum conselho especial?
Nem por isso. Foi uma coisa natural. Disse-me simplesmente que jogasse sem nervos e sem problemas. E que era para jogar os últimos dez minutos.

É chamado na primeira jornada e depois nunca mais é utilizado. Chegou para se sentir campeão?
Obviamente que me senti campeão. Além de ter sido chamado aqueles dez minutos, treinava frequentemente com o plantel. Estava já enquadrado para preparar a transição para o futebol sénior. Nessa altura já estávamos instruídos. Tínhamos bons dirigentes, que nos levavam para o rumo certo. E o respeito pelos mais velhos não podia faltar. Não jogar mais foi algo natural. Quando sou chamado já tinha contrato profissional mas ainda era júnior. E foi nos juniores que fiz o resto da época.

Na época seguinte actuou em dois jogos pela equipa principal e esteve perto de ser dispensado.
Quando faço a transição para os seniores, com 19 anos, disseram-me que era importante ir rodar, para jogar com frequência noutro clube.

O que os fez mudar de ideias?
O Malcolm Allison. Quando chegou ao Sporting fez um treino para observar os mais jovens. Foi um treino simples, apenas de passe e recepção, e ele, só de me ver a passar a bola, quis ficar comigo. Foi um treinador muito importante para mim.

Recebeu muitos conselhos?
Não, com ele não havia disso. Era muito exigente e aqueles que tinham capacidade para trabalhar mereciam a confiança dele. Gostava de jovens com valor, mas, como é hábito em treinadores ingleses, mantinha a distância. Queria era jogadores com rendimento, não perdia tempo com conversas laterais. Era um treinador justo: quem trabalhava bem jogava ao fim--de-semana.

Essa altura, 1981-1982, foi uma grande época para si?
Foi a minha afirmação como jogador profissional no Sporting. O treinador apostou muito em mim e tínhamos uma equipa fantástica. Fizemos a dobradinha e só não fomos à final da Taça UEFA porque desprezámos um pouco o Neuchâtel Xamax, uma equipa suíça sem grande valor. O futebol suíço não tinha grande afirmação na Europa e pensámos que a eliminatória (oitavos-de-final) ia ser fácil.

Nesse ano fica conhecido por um golo importante ao FC Porto.
Foi uma semana um bocado atribulada. Dizia-se que o Jordão não ia jogar e que o substituto ia ser eu. As pessoas ficaram um pouco apreensivas por ser um jovem a jogar num jogo tão importante para o título. O que é certo é que fui chamado, assumi a responsabilidade e marquei o golo da vitória, por 1-0. O mais curioso é que, apesar de estar a jogar a defesa-esquerdo nessa época, actuei mais na frente para marcar o Gabriel, um lateral que subia muito. As coisas correram completamente ao contrário e ele é que teve de se preocupar comigo.

Depois de uma época tão boa, chega a primeira chamada à selecção.
Tive um excelente baptismo, estreei-me contra o Brasil num "empate" 0-4. Eles tinham vindo do Mundial de Espanha e eram uma das melhores selecções brasileiras de sempre, uma das melhores que vi jogar. Além disso, a nossa selecção tinha muitos jogadores que eram novidade. Era uma época conturbada na selecção.

A passagem pela selecção tem muitas interrupções mas é titular no famoso jogo na Alemanha que garante a presença no Mundial do México, em 1986.
Mais uma vez, foi uma situação de recurso. O Futre não estava em condições e também havia outros jogadores lesionados. Não havia mais ninguém e tiveram de me escolher.

Sentia isso, que era sempre uma opção de recurso?
Sentia, porque os critérios na selecção eram muito duvidosos. O Sporting não atravessava um bom período e as escolhas recaíam quase sempre em atletas do Benfica e do FC Porto. Mas apostaram em mim dessa vez e só soube duas ou três horas antes do jogo. Correu tudo bem e até no Sporting começaram a olhar para mim de maneira diferente. Diziam-me: "Nem nós pensávamos que jogavas assim tanto."

E em 1986-1987 marca três golos no campeonato. Todos ao Benfica e dois deles no 7-1. É um jogo que fica marcado...
É a maior vitória de sempre em dérbis. O Benfica até era favorito, mas correu tudo bem ao Sporting e começámos a sentir que estávamos a fazer algo histórico. Começámos a marcar e não abrandámos. Cada vez que íamos à frente marcávamos golo e a inspiração do Manuel Fernandes também foi determinante.

Em 1989 sai do Sporting e é emprestado ao Beira-Mar.
O Manuel José, com quem tinha feito a minha melhor época, afirmou que era preciso acabar com as prima donnas no Sporting e eu fui um dos jogadores que saíram. Sentia-me capaz de continuar e até acredito que ele se arrependeu daquele desabafo. Em Aveiro fui feliz e estivemos quase a chegar às competições europeias.

E regressa ao Sporting...
Sim, mas já era tudo diferente. Tive mais dificuldades, senti que vinha mesmo de fora e não houve uma grande aposta. Começou a aparecer uma nova geração de jogadores e as pessoas entenderam que não devia continuar.

Até que chega o Estrela de Jesualdo Ferreira...
Era um bom projecto, para subir à primeira divisão. Na altura precipitaram-se ao despedir o Jesualdo Ferreira, porque tinha todas as condições para criar um bom grupo e subir à primeira divisão. Ele era o Queiroz da minha geração, com uma grande história em selecções. É indiscutivelmente um dos treinadores em Portugal que mais percebem de futebol.

E o que acontece depois?
Estive dois anos parado e pedi ao Carlos Manuel para ir treinar ao Estoril, para ficar em forma e perder algum peso. Comecei a mostrar que ainda tinha espírito para aquilo e ele disse-me que podia ajudar o Estoril, que quase subiu (1994/95).

O Estoril voltou a surgir na sua vida.
Parece que o destino quis que acontecesse. A minha estreia profissional foi com o Estoril, em 1981/82 somos campeões contra o Estoril e, curiosamente, a minha estreia pelo Estoril é contra o Sporting, no jogo de inauguração da iluminação.

E como é defrontar o Sporting, mesmo que agora seja como director?
Tenho um grande carinho pelo Sporting mas já vejo as coisas de uma forma diferente. É óbvio que tem significado, mas o meu trabalho é o Estoril.

E custa ver as críticas dos sportinguistas ao famoso Estoril-Benfica que se jogou no Algarve?
Isso dava quase para outra entrevista. Não vale a pena estar a falar disso porque é passado. Houve algumas situações que em nada prestigiam o futebol. Mas pronto, as pessoas também sabem o que se passou.

E como vê o Sporting actualmente?
Sou uma pessoa atenta, mas a única preocupação é o Estoril. O Sporting está a passar por momentos difíceis e as pessoas que comandam têm de saber dar o devido valor ao futebol. Tem de se dar mais importância ao futebol e não perder tanto tempo noutros assuntos. E não se pode estar constantemente a fazer comparações com outros clubes, o Sporting tem de ter um projecto próprio, como se faz nas grandes equipas e nos grandes clubes.

Pensa voltar ao Sporting?
Não estou a pensar nisso. As pessoas têm de dar passos certos e estar preparadas para os vários desafios, e neste momento só penso no Estoril.

FONTE:
Rui Pedro Silva, jornal "i", 29 de Janeiro de 2011

3 comentários:

Anónimo disse...

Grande Mário Jorge: que bons velhos tempos. Recordar é viver, S.L.
Lembro.me bem do golo ao Porto, nomeadamente.

Camilo disse...

Eu estava cá -férias- vindo de Luanda.
Vi o jogo e o golo.
Todavia...
Peço ao Mário Jorge que não se esconda:
diga o que se passou no Estoril-Bernfica, nos algarves.
A VERDADE, DOA A QUEM DOER!!!

gansolino disse...

Que saudades... O que o Sporting precisa para continuar grande é de figuras com passado no clube e que gostem verdadeiramenete da camisola.
O clube não precisa ir buscar treinadores ou directores fora quando há por cá homens como Carlos Pereira, Pedro Gomes, Inácio... gente que gosta do clube e é competente. Para quê gastar fortunas em gente estranha e sem valor moral?

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