domingo, 26 de junho de 2011

Sporting. A crise alastrou à formação

Formação sem títulos nacionais. Olheiros estão a ser afastados

Rui Patrício, provavelmente o jogador mais valioso do actual plantel do Sporting e neste defeso falado para o Manchester United podia estar hoje no Benfica se a prospecção do clube de Alvalade não tivesse funcionado como era costume: melhor que a dos rivais. Patrício tinha apenas onze anos quando Artur Garrett foi ver um jogo do Marrazes, à procura de outro miúdo, mas foi o guarda-redes que o surpreendeu. Veja a urgência do processo iniciado: "As qualidades eram evidentes. Durante o jogo telefonei logo ao Aurélio Pereira a dizer que era para assinar contrato; o Aurélio entrou imediatamente em contacto com o presidente do Marrazes, para antecipar e marcar a posição do Sporting face à concorrência; no final do jogo pude abordar o treinador do Rui Patrício e recolher mais informações dizendo que o Sporting já estava em contacto com o clube; depois falámos com a família; quando o Benfica entrou em cena a transferência já estava assegurada." O sucesso no caso de Rui Patrício foi garantido pela "confiança" entre Artur Garrett e Aurélio Pereira, mas essa relação degradou-se nos últimos dois anos, depois da reorganização dos métodos de recrutamento na Academia de Alcochete. Os observadores mais experientes da casa começaram a perder influência e deu-se aquilo que Artur Garrett chama uma "inversão de competências". "Já agora, nunca quis dizer que fui eu que descobri o Rui Patrício, só aceito contar esta história para acabar com alguns protagonismos bacocos que têm aparecido na imprensa", adianta ainda Garrett.

Os caçadores de talentos mais antigos do Sporting, aqueles que ajudaram a dar reputação à mais elogiada prospecção do futebol português, estão descontentes e Artur Garrett é apenas um deles. José Santos e João Ruas são outros dois. A reportagem do "i" encontra-os no Parque das Nações. À nossa frente estão olheiros com 25, 20 e 15 anos de trabalho no clube, observadores que descobriram jogadores como Rui Patrício, Hugo Viana ou Silvestre Varela. "Mas não queremos aqui mostrar currículo, há muita gente que gosta de se pôr em bicos de pés, mas para nós quem descobriu os jogadores sempre foi o departamento de prospecção do Sporting, chefiado por Aurélio Pereira, a quem sempre reconhecemos a liderança e admiração, por comandar um grupo forte e unido. O que nos preocupa é o estado a que o recrutamento chegou, espelhado na fraca qualidade das equipas."


Pela primeira vez, esta época o Sporting não produziu qualquer equipa campeã nacional em nenhum escalão. Esta pré-temporada serão chamados jogadores da formação ao estágio da equipa principal, orientado por Domingos Paciência, mas à medida que se desce nas idades o panorama vai sendo mais desolador, especialmente a partir dos sub-16, uma geração já da responsabilidade da prospecção do núcleo que Sporting tem no Estádio Universitário, sob as novas directrizes entretanto implementadas. A evidência reflecte-se nos internacionais chamados às selecções, que são cada vez menos. Porquê? Veja o que mudou. "Vamos ver um jogador, fazemos um relatório, esse documento é inserido num computador, depois um dia alguém irá observar o miúdo novamente... uns meses depois toma-se a decisão... Porque é que deixaram de nos ouvir?", questionam Garrett, Santos e Ruas. A pergunta fica em cima da mesa, mas as histórias rolam. Nélson Oliveira, avançado chamado por Jorge Jesus à pré-temporada do Benfica e provavelmente a maior pérola da formação encarnada podia ser jogador do Sporting, mas alguém se distraiu. "Quando ainda jogava em Braga, em Outubro, o Sporting tinha em sua posse um relatório meu, mas só em Abril alguém foi fazer a observação decisiva; e mesmo aí acharam que não era um jogador assim tão bom. Já estava a caminho do Benfica...", conta José Santos.

Artur Garrett, José Santos e João Ruas ajudaram a montar a teia de observadores que o Sporting espalhou pelo país. O primeiro jogou no Sporting (chegou a ser colega de Jorge Jesus nos juniores) e depois de se reformar da carreira de bancário concentrou-se na observação de jovens futebolistas. É o sócio 6690, o único olheiro ainda no clube daqueles que começaram a trabalhar com Aurélio Pereira. José Santos, coronel na reserva, juntou-se à equipa uns anos depois e é igualmente sócio do clube, tal como João Ruas (filho de Libânio, ex-guarda-redes), que também fez percurso de jogador (na formação leonina) e de treinador. "No início éramos apenas sete ou oito a fazer prospecção, íamos a todo o lado, mas a partir daí estabeleceu-se uma rede de contactos que chegava sempre em primeiro lugar, fosse onde fosse." Aurélio Pereira, o chefe, tornou-se a face do sucesso à medida que o Sporting vendia os jogadores que formava, mas hoje percebe-se o descontentamento, com ele e com Pedro Mil Homens, o último homem forte da Academia de Alcochete, entretanto já afastado pela nova direcção. Atrás de Mil Homens podem ir outros da sua confiança. Tudo está em causa e isso percebeu-se a partir de Outubro do ano passado, quanto Bento Valente deu uma entrevista arrasadora à "Academia de Talentos": o último braço-direito de Aurélio Pereira apresentou a demissão criticando toda a estrutura e denunciando a perda de autoridade de um homem a que chama "mito", por ter sido ele a arrecadar os louros de caçador de talentos. E assim começou a cair por terra a credibilidade do departamento mais elogiado no clube nas últimas décadas.

O Sporting tem hoje uma rede de 150 olheiros espalhada pelo país. Artur Garrett, José Santos e João Ruas ocuparam posições de relevo mas passaram nos últimos anos de "coordenadores de zona" para algo que passou a designar-se "observadores especiais", um nome pomposo que não esconde uma despromoção. "Supostamente devíamos ter capacidade de decisão na escolhe de jogadores, mas perdemos influência." Na última época o cenário piorou e acabaram equiparados aos "observadores residentes", como aqueles que estão em início de carreira. "É como se me estivessem agora a ensinar como se observa um jogador para o Sporting", diz Garrett.


"Somos incómodos, questionamos a razão de o Sporting ter batido no fundo e então estamos a ser afastados", concordam depois. Nos seus lugares e em toda a estrutura foram progressivamente lançados elementos da confiança de quem manda, designados no meio com a generalização de "professores". "Uma estagiária poderá decidir sobre um relatório de um jogador feito por um observador experimentado? Isto aconteceu no Sporting. Hoje, no clube, acredita-se que se descobre um jogador sentado atrás de um computador, mas não é assim", diz Artur Garrett.

No meio da conversa, os três olheiros vão lançando nomes de jovens craques que os impressionaram nos últimos tempos, mas sabem que a sua opinião já não é tida em conta da mesma forma. A notícia de que Luís Duque será o novo patrão da academia do Sporting agrada-lhes, mas estão à espera de perceber até onde chegam as mudanças. E nem lhes interessa estas lhes digam respeito apenas a eles próprios, porque afinal são reformados, têm a vida feita e aquilo que o clube lhes paga é pouco mais que os quilómetros em deslocações. "Os antigos trabalham com paixão, outros é com dinheiro", avisa José Santos. "A nossa satisfação é ver os jogadores chegarem à equipa principal e às selecções. Somos sócios do Sporting, gostamos e queremos ganhar, mas interessava perceber se muitos dos que lá trabalham são pelo menos adeptos do clube... Aliás, nem nos importávamos que acabasse o pouco dinheiro que existe. Assim logo se via quem lá ficava por vocação! A chegada do Luís Duque poderá ser positiva, assim ele consiga ouvir as pessoas certas, não apenas os que estão nos gabinetes mas também os que andam atrás das árvores a descobrir jogadores, ao frio e à chuva".
Um dos casos mais surpreendentes dos últimos tempos foi a contratação de Bruno Maruta, responsável da formação do Benfica que dois anos depois de entrar em Alcochete regressou à Luz. "Foi um fiasco, delineou uma estratégia mas nunca a aplicou e depois nem sequer quis discuti-la." Ao mesmo tempo que o recrutamento no país sofreu "desinvestimento" e "perdeu hegemonia face aos rivais", o Sporting passou a recrutar no estrangeiro, numa política sem impacto no plantel principal. "Gastaram-se milhões. O Sporting tem de voltar a recrutar bem dentro do país", insistem. "É preciso capacidade para detectar, competência para seleccionar e agilidade a contratar", explica Artur Garrett.

"Isto perdeu-se tudo no Sporting. O que se fez em 30 anos destruiu-se em dois ou três", conclui João Ruas. "E não estamos aqui a dizer que somos infalíveis. É muito difícil acertar num jogador, sabemos que só alguns podem chegar ao topo, mas acreditamos que é com experiência que se falha menos vezes".
"Mas há mais. Sabia que o Sporting tem miúdos à mercê de empresários, mesmo em idades a rondar os oito e nove anos? Acho pouco ético e nada pedagógico", denuncia Garrett. A formação do Sporting está em causa. Na próxima época há pelo menos uma
tentativa de fazer o sportinguismo regressar à Academia de Alcochete e nomes como Sá Pinto ou Vidigal estarão de regresso. Mas Luís Duque ainda toma decisões. 

FONTE: Jornal "i", 25 de Junho de 2011

terça-feira, 21 de junho de 2011

O que é fundamental


O Sporting continua a reformulação do seu plantel, tarefa difícil, sobretudo face aos recursos disponíveis, que são escassos, muito escassos, e que não permitem ao clube contratar grandes jogadores, nem agora nem no futuro mais próximo. Obviamente que o talento é importante na construção de uma equipa, mas nunca foi decisivo para o sucesso ou para a conquista de títulos. Nenhuma equipa consegue ser campeã sem trabalho, profissionalismo, generosidade e entrega de todos. Estes é que são os aspectos fundamentais.
 É preciso que quem chega e quem já lá está se aperceba, rapidamente, que verdadeiramente importantes são a equipa e o clube. A mística é isto e não se transmite com palavras ou apelos, antes pela postura e pela prática seguida no dia-a-dia. Por todos, sem excepção.
Na realidade não vejo nada que seja impeditivo de que se crie uma equipa séria e competitiva embora, na minha opinião, a gestão das expectativas devesse ser mais realista.
Como todos os anos por esta altura repetem-se os apelos ao apoio à equipa, com os quais concordo.
Mas creio que mais importante que esse apoio, todos os dias anunciado e pedido, e antes dele, seria gostarmos dos jogadores. Gostarmos verdadeiramente deles, confiarmos neles. Dos que chegam, que são sempre vistos como os homens providenciais que vão resolver todos os problemas. São raros (e caros) os homens providenciais e este é um erro que tem sido dramático para muitos deles e um dos factores que explicam os sucessivos falhanços dos atletas que o Sporting contrata, ano após ano. E dos que vão ficar, muitos deles menosprezados, maltratados e diminuídos no seu talento e no seu profissionalismo, de forma imerecida, num processo em que são muito mais vítimas que culpados. Seria bom, se calhar, percebermos por que razão os atletas que chegam ao clube baixam o seu rendimento em relação às suas épocas anteriores e, quase invariavelmente, têm uma subida significativa nas suas prestações quando saem do Sporting. Se esta situação fosse uma excepção, claramente que a grande responsabilidade seria dos jogadores. O problema é que é a regra, o que indica que a explicação para esta “triste sina” está noutro lado.
Seria decisivo para o Sporting, particularmente para a sua equipa de futebol profissional que, sem negligenciar o que é importante, se desse prioridade ao que é fundamental.

Virgílio Lopes

domingo, 19 de junho de 2011

Razões para contratar Nuno Gomes


O Sporting Clube de Portugal deveria aproveitar a disponibilidade de Nuno Gomes para o contratar. Nuno Gomes já não será o ponta-de-lança de outros tempos, mas quer, certamente, provar que ainda poderia ser útil ao Sport Lisboa, clube que serviu durante 12 anos. Nuno Gomes é um património do futebol português, como provou o seu desempenho na selecção nacional. E merece um fim de carreira condigno. Seria, antes de mais, uma contratação "política", que provocaria mossa entre os seguidores do Sport Lisboa. Sobretudo agora que o Sport Lisboa lhe pediu para não migrar para Alvalade. E seria uma forma de os sportinguistas começarem a recuperar do trauma que representou a saída de João ;Moutinho para o FC Porto, há um ano, num dos muitos actos de gestão ruinosa da última década. Por isso, gostaria que Godinho Lopes me surpreendesse, apresentando Nuno Gomes como avançado do Sporting.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Stijn Schaars. Um holandês para os livres directos


O médio holandês Stijn Schaars, que jogava no AZ Alkmaar, é o novo reforço do Sporting para a próxima época. É conhecido por gostar de marcar golos de fora da área, em particular de livre directo. Uma competência que tem estado afastada da equipa leonina nos últimos anos. Schaars tem 27 anos, é internacional holandês e estava no AZ Alkmaar há seis épocas, desempenhando funções de capitão de equipa. Integrou o lote de 23 jogadores da selecção holandesa no Mundial de 2010, tendo sido internacional A por 15 vezes. Realizou 39 partidas na época 2010-2011. É o quarto reforço do Sporting para a nova época, depois dos peruanos Carrillo e Rodríguez e do também holandês Van Wolfswinkel.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

O "novo Liedson" vem da Holanda


Não veio Marco Van Basten, nem Frank Rijkaard, nem Drenthe, mas acabou mesmo por haver um holandês no caminho do “novo” Sporting, que Godinho Lopes, por entre promessas de campanha que tem deixado cair, está a preparar para 2011-2012. Chama-se Van Wolfswinkel, é ponta-de-lança, vem do Utrecht, tem 22 anos e foi apresentado nesta sexta-feira como novo reforço da equipa que será orientada por Domingos Paciência. Wolfswinkel custou 5,4 milhões de euros e assinou até 2016, mas o director desportivo do Sporting, Carlos Freitas, considera que não é um investimento de risco, alegando que o avançado tem “grande capacidade concretizadora”.
Na última temporada, Wolfswinkel apontou 15 golos ao serviço do Utrecht. No fundo, Carlos Freitas espera ter encontrado o “novo” Liedson. As informações são boas. Oxalá o Sporting tenha encontrado o seu futuro homem-golo. Depois do fiasco que foi a contratação do francês Pongolle, por 6,5 milhões de euros, não há margem nem paciência para novo erro de "casting".
"Não consigo descrever o quanto contente estou. Não consigo encontrar uma coisa que não seja boa neste clube. É muito bom para mim. Um clube com um grande treinador, uma grande equipa, grandes adeptos. É uma excelente equipa para mim", afirmou o avançado holandês. Um jovem convencido e cheio de promessas: "Quero jogar todos os jogos, quero marcar golos, quero mostrar o meu melhor futebol, quero ser campeão. Sou um avançado, portanto quero marcar golos. Sou bom frente à baliza. O meu primeiro toque é bom, espero desenvolver o meu instinto de marcador." Mas quando ouviu falar em Van Nistelrooy, arrefeceu as expectativas: "Ainda sou novo, tenho muito que fazer para chegar ao nível dele, mas posso chegar lá.” FOTO: “RECORD”
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...