segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Histórias de um Sporting CP grande e popular



Em 2002, o Sporting Clube de Portugal festejou o seu último título de campeão nacional de futebol. Já lá vão muitos anos sem ganhar o troféu mais importante de cada temporada, aquele que constitui a melhor forma de publicitar a imagem e a marca do Sporting no País e no mundo, de gerar receitas e de incentivar a militância dos sócios, acionistas e adeptos.
Estamos a viver o segundo período mais longo da história do clube sem conquistar o campeonato nacional de futebol. Depois de Dias da Cunha, o último presidente campeão, seguiram-se Filipe Soares Franco, José Eduardo Bettencourt e Godinho Lopes, que não conseguiram levantar o troféu maior do futebol português. Aliás, os dois últimos presidentes não conseguiram levantar nenhum troféu oficial.
Um título nacional é o melhor meio para avaliarmos a enorme popularidade do clube fundado por José Alvalade em 1906. Dizem alguns entendidos no fenómeno futebolístico que o Benfica é o clube do povo, que o FC Porto é o clube do Norte e que o Sporting não passa de um clube das elites lisboetas, fundado por aristocratas. Nada como uma final da Taça de Portugal para desmentir essa ideia feita, que, aliás, o próprio Sporting Clube de Portugal não tem sabido contrariar.
Na final da Taça de Portugal 2006-2007, que o Sporting de Paulo Bento ganhou ao Belenenses de Jorge Jesus (1-0), o magnífico vale do Jamor transformou-se numa grande romaria popular, durante todo o dia, onde nem sequer faltou quem tivesse levado um porco inteiro para assar e comer.
No exterior do Estádio Nacional – um palco lindíssimo que, criminosamente, tem estado abandonado pelos responsáveis políticos do desporto em Portugal, não se percebendo por que motivo o estádio de Oeiras ficou de fora dos apoios à modernização no âmbito do Euro 2004 – cheirava a povo, vindo de todo o País, em carros próprios, à boleia ou de autocarro.
A verdade é que o Sporting Clube de Portugal é um clube grande e popular. Basta um título para fazer a grande sondagem. Na memória de todos ficou a festa do título 1999-2000, uma enorme manifestação popular, de Norte a Sul do País, e também nas várias comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo.

A grande festa do título de 2000…
Na noite de 14 de Maio de 2000, o País saiu à rua como nunca se vira em Portugal para festejar o título de uma equipa de futebol. Havia sportinguistas por todo o lado a festejar em todas as cidades de Portugal!... Enquanto a equipa se deslocava para Lisboa, o velho Estádio de José Alvalade encheu para uma grande festa que durou até de madrugada!...
Foi uma vitória que encheu de esperança a nação sportinguista, então de mãos dadas com o "Projeto Roquette". Também essa foi uma temporada atribulada, com uma mudança de treinador: ainda no primeiro terço do campeonato, saiu o italiano Giuseppe Materazzi, que preparara a equipa para uma grande temporada, e entrou para o seu lugar Augusto Inácio, um ex-leão na altura associado aos sucessos do FC Porto, onde fora treinador-adjunto e também principal, substituindo Bobby Robson em algumas ocasiões, por motivos de saúde do técnico inglês. Luís Duque era o presidente da Sporting SAD e Carlos Freitas, então, dava cartas no mercado.
O plantel sportinguista dispunha de jogadores operários, como Vidigal, produtos da formação leonina como o defesa-central Beto mas também atletas de grande categoria internacional, como Peter Schmeichel, André Cruz, Pedro Barbosa ou Acosta.

Os sportinguistas de Parambos
Parambos, uma freguesia da margem norte do Alto Douro vinhateiro, no concelho de Carrazeda de Ansiães, distrito de Bragança, é um exemplo de uma localidade do Interior cuja população sofre pelo Sporting Clube de Portugal. Em Parambos, o futebol profissional é aquele que chega pela televisão. Mas há lá um clube, o Sporting Clube de Parambos, que é a filial nº 87 do Sporting Clube de Portugal. Em meados de Agosto de 2007, a pequena aldeia, considerada “a mais sportinguista de Portugal”, engalanou-se para a festa popular evocativa dos 70 anos da colectividade. Homens e mulheres, velhos e crianças, pegaram numa peça de vestuário verde e foram comemorar. Não haveria "Game Box" que proporcionasse uma demonstração de sportinguismo tão genuíno!...
Do Sporting, foram o vice-presidente Menezes Rodrigues e os antigos jogadores e treinadores Fernando Mendes e Hilário da Conceição. Outro dos presentes foi o antigo presidente Jorge Gonçalves, que foi homenageado. Gonçalves tem ligações a esta freguesia de Carrazeda de Ansiães, onde nasceu o seu pai, e é lembrado na terra por ter sido o único a trazer até à aldeia a equipa principal do Sporting e os seus dirigentes, em 1989, a caminho de um jogo em Chaves. Outros tempos, de facto.
Este exemplo de Parambos deveria fazer com que os dirigentes do Sporting olhassem com mais atenção aos núcleos e às filiais, porque são extensões decisivas para a afirmação do clube e da sua marca no País e no Mundo. Neste caso, o Sporting até deveria ter enviado um ou dois jogadores do plantel principal. A equipa até tinha jogado para a Liga no dia anterior. Aquele povo sportinguista e simples jamais iria esquecer o grande dia.

O “Bacalhau à Sousa Cintra”
Mas há outros exemplos de manifestações do povo leonino. Segundo o jornal "Notícias de Castelo de Vide", cerca de meia centena de sócios do Núcleo Sportinguista de Castelo de Vide celebraram o Natal de 2007 na sua sede, naquela que foi descrita como “uma noite bem animada, que contou com o já tradicional Bacalhau à Sousa Cintra”. O convívio dos sportinguistas de Castelo de Vide terminou com uma troca de prendas. São acontecimentos como este que provam a grandeza e a popularidade do Sporting.

Pedro Pires, um velho sportinguista
O antigo Presidente da República de Cabo Verde Pedro Pires é um velho sportinguista, com cartão de sócio e tudo, mas só conheceu o universo leonino, em Lisboa e Alcochete, no Verão de 2008. De visita a Portugal, Pedro Pires fez questão de conhecer a Academia do Sporting, em Alcochete, "uma grande escola de formação de desportistas, mas também humana", e o Estádio José Alvalade, onde, aliás, almoçou. "É a primeira vez que cá venho e vejo que representa muito bem uma história com mais de 100 anos. Só espero é que venham mais 100 com tantos ou mais sucessos", referiu o chefe do Estado de Cabo Verde. Quanto à sua paixão pelo clube, Pedro Pires lembrou que "não foi uma escolha". Expressando-se de modo a fazer inveja a muitos futebolistas da actualidade, o Presidente de Cabo Verde explicou que o seu amor ao Sporting “é uma questão de gostar... É algo que se sente.” Pois é. É o Sporting Clube de Portugal!...

Uma adepta sportinguista na Amazónia
Como qualquer grande clube, o Sporting é conhecido nas latitudes mais diversas e nos lugares mais surpreendentes. Após a época desportiva 1999-2000, de boa memória para o futebol leonino, fui surpreendido em pleno Acre, um Estado amazónico cravado entre a Bolívia e o Peru, na ponta ocidental do Brasil, por uma senhora brasileira que se confessou adepta do Sporting Clube de Portugal, a cujos jogos assistia regularmente pela televisão. E ela nunca tinha pisado solo português, nem tampouco tinha familiares portugueses. Na altura, o “sonho” dela era ter uma camisola do André Cruz, o antigo internacional brasileiro, que então pontificava com brilho no eixo da defesa sportinguista e fora o motivo do seu sportinguismo…

O caso da russa Alina
O caso da russa Alina, uma estudante de Jornalismo da Universidade de Tomsk, que viajou três dias e três noites, de comboio, percorrendo três mil quilómetros, entre a Sibéria ocidental e a capital russa, só com o objectivo de assistir ao jogo do Sporting, o seu clube preferido, com o Spartak de Moscovo, para a Liga dos Campeões 2006-2007, é mais um exemplo da existência de improváveis sportinguistas espalhados pelo mundo. Uma coisa tão extraordinária que até deixou incrédulo o jornalista José Milhazes, do “Público”, há anos radicado em Moscovo, pelo que fala fluentemente a língua russa, facto que levou a jovem Alina a abordá-lo desta forma: "Não consegue organizar um encontro com Miguel Garcia? Gostava tanto de tirar uma fotografia com ele e pedir-lhe um autógrafo... Vim de propósito de Tomsk...".
José Milhares (http://blogs.publico.pt/darussia) ficou boquiaberto: “De Tomsk? Da Sibéria?..." E o jornalista português quis saber como nasceu tal "amor" de Alina pelo Sporting. Ela, que trazia uma camisola verde e branca, com o emblema do Sporting bordado, e um leão de peluche (que baptizou de Miguel Garcia), explicou: "Este amor começou por acaso. Gosto de futebol, vou ver jogos a um bar de Tomsk e, certa vez, vi um jogo do Sporting e apaixonei-me por esta equipa. São jovens, mexem-se durante todo o jogo. O Miguel Garcia corre para trás e para a frente, é o maior."
Como era impossível não ajudar a jovem siberiana a concretizar o seu sonho, a assessoria de imprensa do Sporting, depois de ouvir uma história tão insólita, prometeu organizar, na zona mista, após o jogo, um encontro entre a sportinguista russa e o seu ídolo português. No final, o sonho realizou-se. Miguel Garcia recebeu a moça, deu-lhe uma camisola e um autógrafo. Pelo menos.

A influência leonina em Macau
A influência leonina estende-se ao Oriente. O Sporting Clube de Macau, fundado em 11-09-1926, filial nº 25 do Sporting Clube de Portugal, é uma extensão da nação sportinguista naquele antigo território português no Oriente. Símbolo da grandeza do clube de José Alvalade, ignorada por muitos, a novidade é que o Sporting Clube de Macau está em fase de relançamento. O novo impulso daquela embaixada do Sporting Clube de Portugal em território chinês pode ser confirmado no seu blogue (http://sportingclubemacau.blogspot.com), animado pelo novo presidente da direção da filial leonina, António da Conceição Júnior – considerado o “leão” mais ativo de Macau.
Agora, há muito trabalho a fazer. Segundo o jornal “Hoje Macau”, no topo da agenda está a atualização dos Estatutos, para “agilizá-los de acordo com o tempo em que vivemos e apresentar oportunamente uma proposta para que o agora reativado Sporting Clube de Macau possa ter uma existência atualizada e legalizada”.
A força do Sporting Clube de Macau dependerá da política do Sporting Clube de Portugal em relação às suas filiais espalhadas em Portugal e no Mundo. “Dependerá da forma como o Sporting Clube de Portugal entender olhar para Macau e para a China”, sublinha Conceição Júnior.

O Núcleo Sportinguista de Goa
Tal como ele, outros sportinguistas vivem o seu clube do coração no longínquo território asiático, acompanhando os jogos de futebol pela RTP Internacional e outros canais de televisão. Em 2007, Luís de Magalhães Pereira, sócio nº 18.736, residente em Lisboa, andou em férias na Índia e emocionou-se em Pangim, a capital do Estado de Goa, ao ter encontrado a sede do Núcleo Sportinguista de Goa, fundado em 25-02-1996.
Luís de Magalhães Pereira relatou o episódio, em e-mail enviado para o blogue LEÃO DA ESTRELA: “O Núcleo Sportinguista de Goa partilha o espaço com uma loja de bebidas, que vende cervejas portuguesas e água ‘Pedras Salgadas’!... O seu proprietário e heróico fundador desta casa leonina é o Sr. Bento Fernandes, que, quando me viu a tirar avidamente fotografias, interpelou-me, perguntando: ‘O senhor é português?’. Respondi: ‘Sou sim senhor! E sócio do Sporting!’"

Sousa Cintra, Soares Franco e o Benfica...
O Sporting Clube de Portugal é muito maior do que alguma vez muitos dos seus actuais dirigentes imaginaram. Presidente do clube entre 2006 e 2009, Filipe Soares Franco não conseguiu partir uma garrafa de água ao atirá-la contra a janela do seu carro em andamento, como Sousa Cintra (pensando que a janela estava aberta, enquanto dava uma entrevista em direto para a rádio TSF, sobre as contratações de Carlos Xavier e Oceano, na década de 1990), mas fez muito pior, ao ter dito que o Benfica tem mais "militância” e mais “clientes” do que o Sporting. Ora, o “populista” Cintra jamais conseguiria dizer isso. Mas conseguiu algo muito mais importante: ir ao balneário do Benfica buscar os melhores jogadores para fazer do Sporting a melhor equipa portuguesa, que só não conquistou títulos por causa do famigerado “sistema” dominado pelo FC Porto, em pleno desenvolvimento na década de 1990…

Preço do café congelado em Coimbra
A história do Restaurante Brasil, de Coimbra, que manteve o preço do café enquanto o Sporting não fosse campeão nacional, é um grande exemplo de militância sportinguista. Não foi nenhuma operação de marketing. Tudo começou numa provocação de alguns clientes benfiquistas. Decorria a década de 1980 e o Sporting teimava em não repetir o título de 1982. "O Sporting já não era campeão há algum tempo e uns amigos benfiquistas do meu marido provocaram-no para ele não aumentar o preço do café enquanto o Sporting não voltasse a ser campeão" , contou Maria de Jesus da Silva, a proprietária do estabelecimento. O café custava 25 escudos e Manuel de Jesus, o proprietário do Restaurante Brasil, aceitou o desafio dos amigos benfiquistas,
A esposa manteve a promessa, mesmo depois da morte do marido, num acidente de viação, em 1995. Na noite de 14 de Maio de 2000, quando o Sporting foi finalmente campeão, a festa foi de arromba. “A presença das várias televisões, o estabelecimento completamente cheio, o trânsito cortado e, acima de tudo, o título do Sporting contribuíram para que fosse uma noite inesquecível”, relata o jornalista Rui Pedro Silva, no jornal “i”, de 9 de Março de 2010, adiantando que “os festejos davam margem para tudo, inclusive para um cliente que decidiu pagar um café com uma nota de dez contos, desabafando: ‘Por todos os cafés, por todos os cafés.’"
A subida do preço para os 100 escudos não tinha data marcada mas, perto da meia-noite, o presidente do Sporting da altura, José Roquette, cumpriu a promessa e passou por Coimbra para beber o último café ao preço antigo e o primeiro a 100 escudos.
A euforia de outros anos já lá vai e o Sporting vive afastado do título nacional desde 2002. Mas não é correto falar-se em crise de militância sportinguista. Pelo contrário, há muita gente espalhada pelo País e pelo mundo, que sofre pelo clube. Uns anónimos e outros conhecidos do público, em função dos cargos que ocupam ou das atividades que exercem. Essas pessoas têm de ser chamadas a Alvalade e têm de ser acarinhadas. São todas essas pessoas que ajudarão a fazer do Sporting o grande clube português que todos os sportinguistas, militantemente, desejam e merecem.

5 comentários:

Anónimo disse...

"o Sporting não passa de um clube das elites lisboetas, fundado por aristocratas."

O problema é que há um grupelho de idiotas que gosta de se considerar superior e que enterraram o Sporting.

Leiria por exemplo é maioritariamente Verde. O povo de Leiria é Sportinguista.

Anónimo disse...

Ainda antes da I guerra mundial o Sporting já era um clube popular e de massas. Quem diz clube de elites ou está de má fé ou não sabe nada da história do clube nem nunca saiu da sua rua

Pedro disse...

Caro Leao da Estrela, fiquei algo confuso com o seu texto. Desde ja me assumo como benfiquista para evitar mal entendidos, mas acho que o seu texto em alguns pontos e pouco sobrio. Aceito o seu sportinguismo mas dizer que a vossa festa em 2000 foi a maior alguma vez vista no pais e algo talvez um pouco exagerado... afinal eu vi essa tal como a de 2005 e de 2010... mas a melhor que tem no texto foi o Sousa Cintra ter ido buscar os melhores jogadores que havia no Benfica...
Eu estou a ficar velho e com problemas de memoria, mas o sr lembra-se de quem foi campeao esse ano e qual/onde foi o jogo do titulo?
No entanto o seu Sporting merece-me respeito, e espero que saibam sair da situacao em que se colocaram e ver quem la vos colocou e que afinal quando se juntam presidentes incompetentes com amigos da onca (Moutinho+Izma+Varela entre outros)...

Abraco

andré tomás disse...

Viajei durante quatro meses pela India, tendo certo dia me deparado com a famosa loja de bebidas do Sr. Bento Fernandes. Não me vou esquecer nunca da emoção que senti quando vi o nosso simbolo pintado na parede exterior, e depois, já no interior, aquela bela vitrine cheia de objectos alusivos ao nosso Clube. Lá deixei o meu cachecol que me acompanhou obviamente naquela aventura por Nepal e India, em troca, trouxe uma das melhores estórias e uma fotografia com o Sr. Bento :)

Anónimo disse...

O Sporting tem de facto origens na elite, basta saber que foi fundado por gente da alta sociedade. Mas evidente por ser um clube grande tornou-se também num clube transversal, cujos adeptos vão das classes mais baixas às mais altas. No entanto estudos comprovam que o benfica, dito clube do povo é de facto mais popular entre as classes mais baixas do que o Sporting, que por sua vez e mais popular entre as classes mais altas do que o benfica. Já o porto e considerado um clube de grande apoio no norte e nas faixas mais jovens.da sociedade. De qualquer forma nos somos um enorme clube com enorme número de adeptos, de todos os cantos do país e do mundo, uns ricos outros nem tanto mas todos Sportingistas! Viva o Sporting Clube de Portugal!!!

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...