sábado, 25 de agosto de 2007

FORAM LEÕES (1) Fernando Gomes

O PRÍNCIPE IMPERFEITO
Durante mais de uma década, Fernando Gomes pagou com silêncio numa espécie de exílio local a afronta dos dois anos finais ao serviço do Sporting, por não ter aceite o decreto presidencial que lhe encerrara a carreira aos 32. O maior goleador portista de todos os tempos, empurrado para fora das Antas pelo culto de personalidade que lhe reduzia o espaço de uma eventual afirmação política, é hoje uma espécie de Príncipe Carlos do reino do Dragão, envelhecendo à medida que o carisma pessoal se dissolve com as memórias, à espera que a Rainha morra, aparentemente perdendo energia e legitimidade para receber a coroa. Se há vinte anos Fernando era um príncipe, hoje não perdeu as referências genéticas, mas também não cresceu como pretendente ao trono. A fractura que sofreu dois dias antes da final de Viena marcou-lhe o destino, afastando-o da final e da iconografia do dragão dos tempos modernos, de nada lhe valendo ter sido o herói de Kiev na eliminatória anterior, quando comparado com o calcanhar de Madjer.
Transformou-se numa espécie de príncipe imperfeito, como se condenado a ser príncipe toda a vida. Gomes jogou 13 épocas pelo FC Porto, foi campeão cinco vezes e melhor goleador em seis temporadas, duas delas também melhor marcador da Europa, e representou a selecção em 48 ocasiões, marcando 13 golos, o que pode parecer pouco pelos padrões actuais, mas chegou para lhe dar uma dimensão nacional, muito rara nos jogadores do FC Porto, por causa das reservas e favoritismos concedidos pela imprensa aos jogadores dos clubes de Lisboa. Antes de Vítor Baía e Fernando Couto, expoentes da geração dourada que também adquiriram prestígio nacional, Gomes foi o portista mais célebre da selecção.
Por essa razão, os dois anos que passou no Sporting, a encerrar a carreira com uma significativa marca de 22 golos na época derradeira, foram encarados com a naturalidade reconhecida ao seu profissionalismo, sem beliscar a matriz da sua imagem desportiva.
Ao optar por uma vida empresarial à margem do futebol, Gomes hipotecou algumas das suas capacidades, mas procurou manter inatacável e afastado de qualquer polémica um estatuto pessoal que suplantou largamente o nível médio dos principais jogadores do seu clube, sempre muito obedientes e alinhados à nomenclatura que os vai mantendo na órbita dos dirigentes, alternando em cargos técnicos ou auxiliares de média ou baixa importância.
Podia ter desenvolvido uma actividade ligada ao futebol, aproveitar o prestígio interno e internacional, beneficiar do facto de ser um portista com dimensão, liberto dos estigmas que ao longo dos 25 anos de gerência de Pinto da Costa foram reduzindo o espaço de manobra da maioria das figuras do clube. Gomes nunca usou a camisola número 2, que o presidente definiu para os delfins, e nunca aceitou ser pajem da liderança indiscutível imposta pelo oligarca.
Remeteu-se ao papel discreto e reservado de sócio, deu-se ao respeito e manteve-se para lá das fronteiras do clube, o que é raro, pelo menos entre os portistas mais conhecidos publicamente. Nunca alguém o viu ou ouviu a defender o indefensável, a vilipendiar os adversários ou a patrocinar as absurdas guerras regionais. Talvez isso não lhe aumente o crédito a nível local enquanto durar o ‘regime’, mas o grosso dos anos já passou e, apesar de tudo, não se vê quem tenha mais condições para liderar a mudança que se vai impor a seguir aos anos do ‘Apito Dourado’ e a necessária reabilitação do nome e da imagem do clube.
Gomes, maior glória de sempre do FC Porto, é uma referência. Esteve sempre lá, mas parecia ignorado por decreto presidencial. Hoje, quando começam a olhar para o futuro, os portistas recuperam o orgulho pelo bibota de ouro europeu, perdoam a heresia dos dois anos de leão e começam a encará-lo como rosto da transição. Ainda a tempo de ser perfeito outra vez.
Autor: João Querido Manha, "Correio da Manhã", 25-08-2007
Fotografia: Sérgio Lemos

2 comentários:

Anónimo disse...

Fernando Gomes sempre foi um Senhor na sua maneira de estar no futebol e mesmo no tempo em que representou o nosso clube nunca escondeu o seu amor pelo FCP, mas nada se pode apontar ao seu grande profissionalismo, e ainda nos foi muito útil.
Agora, este texto vindo de quem vem, tem água no bico.O que quererá o mais popularizado desinformador do futebol português passar com esta mensagem? Boa coisa não será com toda a certeza.É das piores coisinhas que nos vai sendo imposta pelos media.
Quando é que a TVI ganha um pouco de vergonha e substitui esse manha por um comentador que perceba de futebol e que saiba ser isento.

Anónimo disse...

há alguns meses pedi-lhe um autógrafo e disse-lhe:
Gomes..foste um profissional exemplar. nunca te esquecerei.
e ele disse-me: e eu nunca vos esquecerei.

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