terça-feira, 20 de maio de 2008

SPORTING NO PAÍS Porto

A CACHUPA E OUTRAS LENDAS

A Cachupa e Carlos Lopes "campeão mundial", Malcolm Allison e muamba de jinguba, Joaquim Agostinho "português de raça", "o senhor" Moniz Pereira, moelas e cerveja a cinquenta cêntimos. No Porto, o Sporting existe. Vivo, algo envergonhado.

Rua Alexandre Herculano, número 311. O "Sporting" não está identificado. Fica no segundo andar, por cima da Escola de Condução Portuense. Era um núcleo. Disfarça, mas já não é. Quando alugaram o espaço, Vítor e Filomena - atenção: benfiquistas assumidos - comprometeram-se em conservar a decoração. Vai fazer dois anos. E lá está: verde e branco até à exaustão, um leão imponente e uma centena de troféus da antiga colectividade. Os clientes só têm uma regra a cumprir. "Respeitar a casa", lança Filomena, que aos sábados oferece "cachupa para cativar" e que já instituiu aquilo a que chama "mesa de família". Tradução: em troca de cinco euros, o cliente senta-se à mesa, confia na "surpresa" cabo-verdiana e serve-se directamente da panela. "Uns piropos e mais nada, não admitimos absolutamente mais nada."
Os sportinguistas sentem-se "em casa". Os portistas estranham, mas são os clientes mais frequentes. Os benfiquistas entram e já não querem sair ("é preciso corrê-los à vassoura"). Até há pouco tempo, o casal recebia o jornal do Sporting, mas não vale a pena abusar. "Os sportinguistas morreram um pouco aqui no Porto. Ficou o amor", sublinha Filomena, um olho no jantar e outro no pequeno Xavier, que já foi apanhado a cantarolar um ou outro "FC Porto". Com ou sem lógica clubística, com ou sem métrica, hoje há cerveja a preço de chuva, tripinhas, patas, bifanas e moelas. "Prò S. João se prolongar/ Só há um sítio para se estar/ É ao Sporting vir parar/ E nunca se esquecer de cá voltar".
Para os interessados, há uma outra colecção de raridades nas redondezas. Rua do Bonfim, número 518. O SOLAR DO NORTE ainda é a delegação do Sporting na cidade do Porto - na última contagem fornecida pelo Sporting, o distrito estava apetrechado com perto de seis mil sportinguistas dos oficiais. O edifício, inaugurado em 1990 por Sousa Cintra, é do Sporting e alberga uma autêntica caderneta de cromos. Junto às duas cadeiras arrancadas do antigo Estádio de Alvalade estão Azevedo "lenda imorredoira do Sporting", Keita "do Mali para criar insónias aos guardiões portugueses", o guarda-redes Carlos Gomes, o "violino" Manuel Vasques... "As nossas preciosidades, os nosso altares são estes." Manuel Pimenta, vice-presidente do Solar, apresenta: ali, a camisola de júnior de Venâncio, aqui uma das camisolas amarelas de Joaquim Agostinho, um "verdadeiro altar", e eis o stick e a máscara com que Chambel defendeu a baliza do Sporting na final da Taça das Taças em 1991.
Desde Janeiro que uma equipa procura um novo poiso (talvez na Foz) para posteriormente apresentar a proposta ao Sporting, mas até lá o SOLAR DO NORTE resiste com as condições mínimas e lutando contra alguns inimigos que ajudam a repelir os adeptos: as estradas boas, a compra de bilhetes através da Internet, a SportTV, o conforto caseiro e alguns actos de vandalismo que deixaram marcas no edifício. "As pessoas preferem estar no sofá do que nestas cadeiras", lamenta Manuel Pimenta, que abre e fecha a porta do Solar. "Não mudou o amor ao clube, mudaram as tradições".
Autor: Luís Octávio Costa, "Público", 18-05-2008

2 comentários:

Anónimo disse...

A guerra aberta pelo “regionalismo”, e o decréscimo desportivo que o nosso clube demonstrou nos últimos 20 anos, fizeram morrer um pouco a Paixão Leonina que sempre existiu a norte, muito principalmente no epicentro da “guerra”: o concelho do Porto.

Que saudades tenho do apoio que as equipas do Sporting sentiam quando se deslocavam ao Porto.

Por curiosidade: ainda existe o Sporting Clube Português? As suas instalações não eram exactamente na Rua Alexandre Herculano? Por acaso este “Sporting” que fala a reportagem era a sua sede?

Alguém me sabe responder?

Anónimo disse...

Sim este "Sporting" da reportagem é o da Alexandre Herculano dos bons velhos tempos!
Helder Seixas

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