segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

MEMÓRIAS LEONINAS A outra vida de Cherbakov

À pergunta se ainda pensa como é viver sem depender das pernas, a resposta do ex-futebolista ucraniano Serguei Cherbakov sai seca: "Já não." E num português perfeito, o antigo jogador do Sporting explica porquê: "Elas já não são o meu sustento, deixaram de ser há muito tempo, mas o futebol sim, continua a ser a minha vida", contou, num tom cordial, quase resignado, mas ainda com a esperança de que, algum dia, os tratamentos o farão voltar a andar.
Há 15 anos "Cherba", nome por que era conhecido no mundo do futebol, terminou a sua carreira de futebolista de forma abrupta: desrespeitou um sinal vermelho na Av. Liberdade, em Lisboa, e sofreu um acidente brutal que lhe ceifou as pernas e um futuro promissor. Na madrugada de 15 de Dezembro de 1993 ficou paraplégico. Tinha 22 anos. Para quem acredita na causa das coisas, tudo começou na eliminação europeia do Sporting, em Salzburgo, frente ao Casino, para a Taça UEFA. A decisão de Sousa Cintra foi imediata: despediu Bobby Robson e, para o seu lugar, o presidente leonino tinha já escolhido Carlos Queiroz. A noite seguinte ficou reservada para um jantar de despedida do treinador inglês. E terminaria em tragédia.
Com álcool em excesso no sangue, Cherbakov saiu do restaurante, meteu-se no carro e só parou quando embateu violentamente noutras duas viaturas no cruzamento da Av. Liberdade com a Rua Alexandre Herculano. Deu entrada, pouco depois, no Hospital de São José. Teve fracturas nas oitava e nona vértebras lombares. E lesões irreversíveis. "As pernas acabaram e as pernas são a minha vida", disse o futebolista quando recuperou a consciência. Disse-o, então, ao presidente do Sporting, Sousa Cintra.
Cherbakov nasceu em Donetsk, na Ucrânia, a 15 de Agosto de 1971. A 15 de Dezembro de 1993, o seu maior sonho acabaria. "Cherbakov é um campeão e tem um grande campeonato para fazer", dizia na altura Carlos Queiroz, à saída do hospital. Era o novo treinador do Sporting. O "campeonato" a que se referia Queiroz era a luta que o futebolista tinha pela frente. Hoje tenta que o Spartak Moscovo ganhe campeonatos, já que é olheiro, uma espécie de caça-talentos do clube, na Rússia. Para trás ficou a vida de futebolista, não o futebol.
"Vivo em Moscovo, vim para a Rússia e é aqui que estou agora", contou ao PÚBLICO em entrevista telefónica. "Trabalho com os miúdos do Spartak, tenho prazer no que faço", conta. Não afasta do pensamento a possibilidade de voltar a Portugal. País onde diz gostar de viver, lembrando que os conflitos que tem com o Sporting vêm todos do tempo de Cintra enquanto presidente. "Esta direcção [de Soares Franco] está a tentar resolver os problemas e está tudo bem encaminhado", diz sobre a dívida que alega que o clube ainda tem para com ele, referente às duas épocas que ainda tinha no contrato com os "leões" depois da lesão.
"Se não fosse o acidente, que futuro poderia ter tido no futebol?" A pergunta é difícil e Cherbakov demora algum tempo a responder. Mas, depois, não tem dúvidas em apontar algo semelhante ao de Luís Figo. "Talvez teria ido para Barcelona, como o Figo", conta. À medida que os anos passam e que a tecnologia avança, há cada vez mais lembranças dos golos e dos lances que marcaram a (curta) carreira de Cherbakov.
"Cherba" sabe disso. Sites com fãs proliferem pela Internet. "Sei que isso tudo existe, sim. É muito bom lembrar e ler as mensagens de apoio. Não me esqueceram e eu também não. Foi o Sporting que me mostrou ao mundo e isso nunca esquecerei", desabafa.
Médio/avançado, destacou-se no Mundial de sub-20 de 1991, onde foi o melhor marcador ao serviço da então URSS. Jogou em Alvalade entre 1992 e 1994, fez 37 jogos e marcou 6 golos. Em Novembro, num jogo que o Sporting disputou na Ucrânia, contra o Shakthar, para a Liga dos Campeões, Cherbakov reencontrou o seu antigo clube. Tinha dito que Moutinho era o jogador dos "leões" de que mais gostava e o "capitão" retribuiu o elogio oferecendo-lhe a camisola.Fez poucos jogos em Alvalade, mas na memória ficou, principalmente, o golo ao Beira-Mar. "Lembro-me muito bem...", diz. Sem preparação, após a marcação de um canto de Balakov, fuzilou a baliza com um remate fora da área. "Foi um sábado, dia 8 de Maio de 1993, minuto 62. Fez-se história em Alvalade", está escrito no YouTube.
FONTE: Filipe Escobar de Lima, "Público", 15-12-2008

7 comentários:

gavazzo disse...

Foi uma grande tristeza. Pelo Homem e pelo futebolista.
A vida pode ser muito cruel. E a fronteira entre a sorte e o azar muito ligeira.
Admiro o carácter e a força do Cherbakov e o facto de ter conseguido tão sábia e serenamente levar com a vida para a frente.

Um exemplo de coragem.

Anónimo disse...

O acidente ocorre em vésperas de se ir à Luz defrontar os futuros colombinos.
A camisola 8 é colocada em frente ao banco de suplentes leonino. Na 1ª parte, Balakov marca um canto e Figo antecipa-se a Neno (um canto, para o Julio Iglesias português, era um penalty) e marca o golo do Sporting, o 0-1. Lágrimas correm do rosto de Figo e lê-se nos seus lábios o nome "Cherba"! A vitória moral e emotiva no Derby já estava conseguida. Na 2ª parte, Isaias e a expulsão de Capucho fizeram a vitória desportiva do futuro campeão.

Grande jogador. Recordo com saudade os seus golos. Além do tanto falado golo ao Beira-Mar, recordo um outro, em Alvalade com o Casino de Salzburgo. Corre meio campo, é agarrado pelo adversário, que lhe arranca o fio que tem ao pescoço, e, de fora da área, remata com força para golo. Uma vitória por 2-0 que não seria possível manter em Salzburgo.

Um abraço Cherba, nunca te esquecermos!

Gnitrops disse...

As homenagens ao Cherbakov nunca são demais...Grande jogador e poderia ter sido ainda melhor!!

Força Cherba!!

http://sportingnamente.blogspot.com/2008/08/cherbakov.html

Anónimo disse...

O meu comentário não é politicamente correcto, mas, apesar de lamentar o que aconteu ao Cherbakov, ninguém mais que do que ele teve culpas. O crime virou-se contra o criminoso neste caso. Ao conduzir com alcool no sangue e ao passar um sinal vermelho Cherbakov colocou em risco a sua vida e a de inocentes. Prejudicou-se a si e ao Sporting, ao ter um comportamento pouco profissional. Lamento o que aconteceu, mas não vejo porque razão deveria o Sporting pagar-lhe os ordenados dos restantes anos de contrato, visto que a lesão não ocorreu ao serviço do clube...

Anónimo disse...

cantinhodomorais

Gostei dessa dos 'colombinos'!
Desconhecia que o Cristóbal Colon era nosso adepto!
Realmente é grande a diferença entre o ENORME e os ANORMAIS!

Soylent Green disse...

Caro Leão d'Aveiro
Se... Se Bobby Robson não fosse despedido.
Sem desculpar a inconsciência de um jovem de 22 anos, Cherbackov merecia, tal como outros, uma pena muito mais leve.
Mas fico feliz por ver que, apesar de ter perdido as pernas, não perdeu aquilo de que é feito um Homem... a Coragem.

Obrigado Cherba. Há sempre uma porta que se abre quando outras parecem fechar-se.

Anónimo disse...

O primeiro jogo que vi ao vivo do Sporting no velhinho Alvalad, foi precisamente esse, em que o Cherbakov marcou aquele "golão".
Foi tudo especial nesse jogo...comprar uma bandeira do SCP nas bancadas que vendem cachecois, bones etc, comer uma bifana antes d entrar no estádio, subir as escadas que dão acesso as bancadas e ver o relvado verdinho a brilhar, o sol que fazia nesse dia a tarde, a entrada das equipas em campo, os 3 golos do SCP, a reação do GR do SCP -Ivkovic- ao golo do Cherbakov, levando as mão a cabeça de espanto pelo golaço que foi...tudo excelente memorias, que guardei ate hoje.
MÁRIO QUINTAS

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