sábado, 9 de maio de 2020

Bruno de Carvalho ilibado. E agora?...


Em tempos de pandemia, envio por aqui o meu forte abraço de parabéns ao ex-Presidente do Sporting Clube de Portugal, Bruno de Carvalho, por ter ficado livre de todas as acusações de que era alvo no processo da invasão ao centro de treinos de Alcochete.
Depois de meses e meses em que foi acusado de tudo e mais alguma coisa, em páginas e páginas de jornais e horas e horas de programas de televisão – muitas vezes com base em informações falsas e sem o direito ao contraditório, num atentado sistemático e sem precedentes à Lei de Imprensa perpetrado por muitos meios de comunicação –, Bruno de Carvalho tornou-se numa figura mal-amada para a generalidade dos portugueses e para muitos associados do clube, que o destituíram da presidência e expulsaram de sócio.
Todos batiam no Bruno. Até a justiça, que o prendeu vergonhosamente, e indignamente, num domingo ao final da tarde, para prestar declarações três dias depois, sob o argumento de que existiria perigo de fuga, quando era o próprio ex-presidente leonino que já tinha pedido para prestar declarações no âmbito do processo de Alcochete.
Bruno de Carvalho é, talvez, a figura pública portuguesa que comeu o pão mais duro que o diabo amassou.
Dois anos depois de Alcochete, Bruno de Carvalho não esqueceu o SCP e continua por aí, disponível para regressar, mais motivado do que nunca. E os sportinguistas também não se esqueceram dele. E parecem ser cada vez mais aqueles que querem o seu regresso á presidência de um clube que entrou em decadência depois da sua saída.
Mais uma vez, os sócios do SCP serão soberanos e saberão decidir em função das novas circunstâncias, quando forem chamados a dizer o que pensam, Mas para isso é necessário que o presidente da Assembleia Geral, logo que termine o julgamento, convoque uma assembleia geral para o efeito.
Porque não há dúvidas de uma coisa: Bruno de Carvalho foi destituído e expulso do SCP porque a lavagem cerebral feita aos sportinguistas apontou o ex-Presidente como o mandante da invasão a Alcochete. Algo em que nunca acreditei.
A verdade é que o ataque a Alcochete foi o evento que despoletou a emoção popular que virou a cabeça dos sócios leoninos, e não outras questões secundárias, como as diferentes interpretações dos estatutos (das quais já ninguém se lembra).
O que emocionou verdadeiramente os sportinguistas e grande parte da sociedade portuguesa, inclusive fora do futebol, foi a exploração mediática até à náusea da invasão à Academia de Alcochete – associada às imagens simbólicas da marcha dos estúpidos de cara tapada e da cabeça rachada de Bas Dost, tendo esta sido fotografada, ao que parece, sob as ordens de Frederico Varandas, então médido da equipa de futebol. E como pano de fundo desta construção mediática, a ideia de que havia um monstro a orquestrar tudo. A justiça diz agora que Bruno é inocente!...
A questão agora é saber como é que esta tremenda injustiça poderá ser resolvida para que o Sporting Clube de Portugal reencontre o seu futuro num clima de pacificação.
Dado não existir dúvidas que Bruno de Carvalho foi expulso de sócio tendo sobre si o labéu da autoria moral da invasão a Alcochete – e no libelo acusatório de 70 pontos, sem direito ao contraditório, da Assembleia Geral de destituição do presidente, em 23 de junho de 2018, encontramos 20 pontos (entre o 11º e o 31º) que visam Bruno de Carvalho e apontam a sua responsabilidade no ataque a Alcochete –, o mínimo que os sportinguistas terão a fazer será uma assembleia geral que tenha por finalidade o debate e a votação de uma proposta da reintegração do ex-Presidente como sócio do clube. Não haverá outro caminho, sob pena de o Sporting Clube de Portugal ficar manchado para sempre.

terça-feira, 5 de maio de 2020

O ciclismo como alavanca de todas as modalidades

Joaquim Agostinho: o melhor ciclista português de todos os tempos
e um dos melhores do mundo
No mês de abril cruzam-se a vida e a morte de Joaquim Agostinho, o melhor ciclista português de todos os tempos e um dos melhores do mundo, que ficou na retina da família sportinguista como um símbolo marcante do Esforço, da Dedicação, da Devoção e da Glória do Sporting Clube de Portugal (SCP) e do ecletismo do clube fundado por José Alvalade, em 1906.

Trago à colação o nome de José Alvalade porque, na Lisboa de inícios do século XX, ele fundou o SCP – com a ajuda financeira do avô, o Visconde de Alvalade –, projetando-o de imediato como um grande clube, tão grande como os maiores da Europa. Um clube grande e eclético para os jovens praticarem diversas modalidades desportivas e não um clube de danças e festas de salão da alta sociedade, em que se tinha transformado o Campo Grande Football Club.

Este ADN eclético dos fundadores – de José Alvalade aos irmãos Gavazzo, entre outros, que abandonaram o Campo Grande para fundar o SCP – atravessou os 114 anos da história do clube, embora com épocas mais promissoras do que outras. Penso que a conhecida aposta da equipa principal de futebol na fábrica de talentos formados no clube – que é muito antiga e não começou com Alcochete –, tem a ver com essa cultura fundadora virada para a formação e integração social dos jovens através da prática desportiva.

João Rocha: um empreendedor visionário

Entre 1973 e 1986, João Rocha, um empresário visionário que nem ligava muito ao futebol antes de ser convidado para assumir a presidência do SCP, ficou na história do clube por torná-lo verdadeiramente eclético e vencedor em diferentes modalidades, por ter aumentando o património e por ter criado as bases para uma mudança de paradigma na gestão do clube.

João Rocha projetou no SCP a ideia de uma cidade desportiva com milhares de sócios e praticantes de modalidades – uma verdadeira potência desportiva em Portugal. Ele sabia que era da força dos números que viria a força das receitas económicas, o poder reivindicativo, a influência na sociedade e a capacidade de aglutinação e mobilização dos sportinguistas.

Nas décadas de 1970 e 1980, o SCP atingiu 15 mil praticantes e 100 mil sócios, que vibravam com as medalhas de Carlos Lopes, os remates de António Livramento e as pedaladas de Joaquim Agostinho da mesma maneira que celebravam as grandes jogadas e os golos de Yazalde, Keita, Manuel Fernandes, António Oliveira ou Rui Jordão.

Bruno de Carvalho tentou reconstruir um Sporting grande, influente e vencedor

Anos mais tarde, também Bruno de Carvalho trilhou este caminho de construção de um Sporting grande, influente e vencedor. Fez crescer o entusiasmo nas bancadas do Estádio de Alvalade, onde as assistências duplicaram, aumentou o número de sócios, que chegou a ultrapassar a fasquia dos 150 mil, soube contratar bons treinadores, resolveu graves problemas financeiros, aumentou o número de modalidades e criou duas estruturas de importância fundamental para a solidez e credibilidade do projeto desportivo do SCP. Refiro-me à Sporting TV, um braço mediático sonhado há muitos anos, cujas potencialidades nunca foram bem exploradas, e ao Pavilhão João Rocha.

O pavilhão foi uma conquista histórica, pois ditou o fim de um autêntico suplício para as modalidades leoninas, parentes pobres do clube, que andavam literalmente com a casa às costas, treinando e jogando sempre fora de Alvalade, com tudo o que isso acarretou de negativo em termos de rendimento desportivo e de perda de influência desportiva do clube.

Sabemos que o futebol é que movimenta grandes multidões e orçamentos, mas só um SCP eclético consegue ser verdadeiramente grande, competitivo, influente e inovador na comparação com o Benfica e o FC Porto. A propósito, o ano de 2018, assinalado com títulos nacionais do SCP em todas as modalidades de pavilhão, foi verdadeiramente épico e, em certa medida, preocupante para os nossos adversários.

Vem tudo isto a propósito de Joaquim Agostinho, de quem me lembrei esta semana, porque nasceu em 7 de abril de 1943, há precisamente 77 anos, e deixou o ciclismo em 30 de abril de 1984, ao sofrer uma fratura no crânio numa queda motivada por um canídeo, na Volta ao Algarve, que era a primeira grande prova do regresso do SCP às estradas portuguesas. O ciclista ficou em coma até morrer no dia 10 de maio.

Para mim, e para milhões de portugueses no país e nas comunidades de emigrantes, foi um choque terrível. Com 41 anos, Joaquim Agostinho, que já tinha ganho tudo em Portugal e brilhado na Volta à França – que era uma espécie de Liga dos Campeões do ciclismo –, preparava-se para terminar a sua carreira em Portugal com a camisola do seu clube, então a melhor equipa portuguesa. Mas, com a sua morte, o ciclismo leonino nunca mais foi o mesmo e voltaria a desaparecer.

Bruno de Carvalho fez regressar o ciclismo leonino às estradas

De qualquer modo, é também a Joaquim Agostinho que o SCP deve o facto de ter milhares e milhares de adeptos no interior do país – nomeadamente naquelas vilas e aldeias onde, por alturas da Volta a Portugal, a única camisola verde e branca que lá chegava era a dele e a de outros ciclistas leoninos.

Curiosamente, foi também na presidência de Bruno de Carvalho que o SCP voltou a ter ciclismo. Desta vez, porém, com resultados muito modestos, dadas as condições da parceria entre o clube e a Câmara Municipal de Tavira. Uma parceria, entretanto, terminada, por desinteresse da Direção de Frederico Varandas, que não soube, ou não quis, procurar um novo parceiro estratégico para continuar com a equipa principal de ciclismo.

Julgo, no entanto, que este abandono do ciclismo profissional representa um erro estratégico e uma gritante falta de visão sobre o papel da modalidade como mola do ecletismo do SCP e da implantação nacional da militância sportinguista.

José Alvalade fundou o SCP para ser tão grande como os maiores da Europa

Num país com as características de Portugal, onde um grande clube tem adeptos espalhados por todas as latitudes, o ciclismo apresenta, de facto, muitas vantagens na promoção do clube e da sua marca e poderia funcionar como canal condutor da comunicação e do marketing do SCP. Elencando seis dessas vantagens:

1 – O ciclismo permitiria promover a marca “Sporting Clube de Portugal” em todo o país, com a respetiva exposição mediática, a começar pelos meios de comunicação do clube.

2 – O ciclismo levaria a marca “Sporting Clube de Portugal” a vilas e cidades onde o futebol normalmente não leva.

3 – Com recurso a um “camião verde” o merchandising teria mobilidade suficiente para circular em todo o país e o ciclismo seria um dos canais de contacto com a população, em especial nas vilas e cidades de arranque ou paragem das etapas da Volta a Portugal e outras provas do calendário velocipédico.

4 – O ciclismo permitiria o contacto direto de dirigentes leoninos e atletas de outras modalidades com a população e autoridades locais, aproveitando as estruturas locais dos núcleos leoninos.

5 – Nas vilas e cidades onde a caravana do SCP estivesse presente seria possível lançar campanhas de angariação de sócios e promover a venda de “gameboxes” para a temporada de futebol.

6 – O ciclismo permitiria um cruzamento permanente dos responsáveis pelas diversas modalidades e respetivos atletas mais conhecidos em projetos de expansão da marca SCP.

Com esta visão agregadora das forças leoninas, o ciclismo poderia funcionar como uma das grandes alavancas na dinâmica global do SCP. E com um projeto com esta dimensão e com estas características talvez não fosse assim tão difícil encontrar um excelente patrocinador, de modo a que todos ganhassem.

Se há modalidades que foram vitais para a gloriosa história do SCP, o ciclismo é uma dessas modalidades. Tanto mais que, como demonstrei ao longo deste artigo, se o SCP investisse a sério no ciclismo, também estaria a investir no futebol e em todas modalidades. O desígnio de fazer do Sporting "um grande clube, tão grande como os maiores da Europa", expresso por José Alvalade, em 1906, também passa por aqui. E Joaquim Agostinho, esteja ele onde estiver, ficaria muito feliz.

Obs. – Artigo publicado originalmente no site de Bruno de Carvalho, em 9 de abril de 2020. Link: https://bit.ly/2xBYYoI
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