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Pinto da Costa disse à "Visão" que não queria nenhum jogador do Benfica e que, do Sporting, ficaria de bom grado com João Moutinho, porque se trata "de um jogador à FC Porto". Se a primeira afirmação deve ser lida à luz da condução estratégica que é feita pelo presidente do FC Porto há mais de 20 anos - e desta vez é o Benfica que convém ir rebaixando, mantendo boas relações com o Sporting e o mesmo presidente com quem já teve grandes problemas "papais" -, a segunda prova que o dirigente portista continua a ter bom gosto e discernimento na escolha dos alvos.
João Moutinho é a melhor coisa que acontece ao Sporting desde a contratação aventureira de Jardel, em 2001. Por ele, mais do que por Veloso ou Liedson, vale a pena repensar a organização do futebol do clube, renegociar com os bancos e perceber que há vida para além do défice.
É certo que Moutinho faz mais de 50 jogos por época, que não se lesiona, que não se cansa e joga sempre entre o bem e o muito bem. Não é tantas vezes decisivo como Liedson, mas também não passa jogos anónimo. Não tem a categoria e a margem de progressão de Veloso, mas é muito mais seguro: o último erro defensivo comprometedor que cometeu foi no Benfica-Sporting da Taça de Portugal, em Janeiro de 2005. E a somar a tudo isso, com Moutinho o Sporting pode voltar a ter mística, algo que não se vê em Alvalade se calhar desde a despedida de Manuel Fernandes.
Bastava ver o plano apertado que a realização televisiva fez no final do Sporting-Marítimo, em que o capitão tentava convencer um companheiro - que não aparecia na imagem - a ir a um dos topos agradecer o apoio das claques, para o compreender. É também por atitudes como estas que a continuidade do capitão é imprescindível ao Sporting do futuro.
Deve dizer-se, em abono da verdade, que o Sporting parece ter percebido isso já na época passada, quando aumentou o ordenado do jogador para um plano próximo do seu tecto salarial. Esse contrato tinha, contudo, a célebre cláusula do dízimo, pela qual o Sporting se obrigava a pagar ao jogador dez por cento de cada proposta que rejeitasse para o vender acima de 15 milhões de euros. E é essa cláusula que pode transformar o esforço para o manter num investimento importante, numa altura em que o passivo ainda não baixou tanto como o prometido, em que a carga de juros continua a ser elevada e o baixo "cash flow" gerado pela SAD ainda obriga à constituição de um empréstimo obrigacionista como única forma de pagar o que se emitiu anteriormente e agora vence. Soares Franco, contudo, dá sinais de querer inverter a tendência política exclusivamente centrada na dívida e nos objectivos financeiros com que sublinhou o último ano e meio.
Tal como o País, talvez o Sporting também precisasse de anular os efeitos da catastrófica política consumista de 2000 (sobretudo) e 2001, bem como do investimento em infra-estruturas que se fez depois, com o Estádio e a Academia. Mas se a obsessão com o défice travou a economia nacional, também mata o Sporting pela anulação dos objectivos desportivos. Mais do que a impossibilidade de gerar mais-valias no mercado todos os anos de forma a cumprir as metas definidas no "project finance" - com Veloso e Moutinho o Sporting já garantiria mais dois defesos animados - terá sido a noção de que esse caminho matava a sede de conquista, pela desresponsabilização que trazia para a equipa de futebol, a levar os responsáveis a atalhar caminho.
Assim, começam a surgir notícias de que o Sporting tentará libertar 15 a 20 milhões de euros para gastar no mercado ou que a SAD poderá aproximar o orçamento dos de Benfica e FC Porto. Percebe-se a necessidade, até porque só para ficar com Izmailov, Vukcevic e Grimi quase se vai embora metade do investimento anunciado. Mas a entrevista de Pinto da Costa foi uma assistência perfeita, daquelas que deixa o avançado de baliza aberta, e em Alvalade ninguém a aproveitou.
Tal como o presidente do FC Porto já falou de Lucho, Bruno Alves, Quaresma ou Bosingwa, Soares Franco devia ter respondido a Pinto da Costa, confirmando aquilo que ele dissera: "Sim, João Moutinho é obviamente inegociável." A menos que não seja assim e a época que agora termina não tenha chegado para ensinar aos dirigentes do Sporting que o que precisam não é de gastar muito com jogadores novos, que podem dar certo ou acabar em fiascos. O que precisam é de guardar os que já têm e sabem que são bons.
AUTOR: António Tadeia, "Diário de Notícias", 03-05-2008
FOTO: www.sporting.pt
João Moutinho é a melhor coisa que acontece ao Sporting desde a contratação aventureira de Jardel, em 2001. Por ele, mais do que por Veloso ou Liedson, vale a pena repensar a organização do futebol do clube, renegociar com os bancos e perceber que há vida para além do défice.
É certo que Moutinho faz mais de 50 jogos por época, que não se lesiona, que não se cansa e joga sempre entre o bem e o muito bem. Não é tantas vezes decisivo como Liedson, mas também não passa jogos anónimo. Não tem a categoria e a margem de progressão de Veloso, mas é muito mais seguro: o último erro defensivo comprometedor que cometeu foi no Benfica-Sporting da Taça de Portugal, em Janeiro de 2005. E a somar a tudo isso, com Moutinho o Sporting pode voltar a ter mística, algo que não se vê em Alvalade se calhar desde a despedida de Manuel Fernandes.
Bastava ver o plano apertado que a realização televisiva fez no final do Sporting-Marítimo, em que o capitão tentava convencer um companheiro - que não aparecia na imagem - a ir a um dos topos agradecer o apoio das claques, para o compreender. É também por atitudes como estas que a continuidade do capitão é imprescindível ao Sporting do futuro.
Deve dizer-se, em abono da verdade, que o Sporting parece ter percebido isso já na época passada, quando aumentou o ordenado do jogador para um plano próximo do seu tecto salarial. Esse contrato tinha, contudo, a célebre cláusula do dízimo, pela qual o Sporting se obrigava a pagar ao jogador dez por cento de cada proposta que rejeitasse para o vender acima de 15 milhões de euros. E é essa cláusula que pode transformar o esforço para o manter num investimento importante, numa altura em que o passivo ainda não baixou tanto como o prometido, em que a carga de juros continua a ser elevada e o baixo "cash flow" gerado pela SAD ainda obriga à constituição de um empréstimo obrigacionista como única forma de pagar o que se emitiu anteriormente e agora vence. Soares Franco, contudo, dá sinais de querer inverter a tendência política exclusivamente centrada na dívida e nos objectivos financeiros com que sublinhou o último ano e meio.
Tal como o País, talvez o Sporting também precisasse de anular os efeitos da catastrófica política consumista de 2000 (sobretudo) e 2001, bem como do investimento em infra-estruturas que se fez depois, com o Estádio e a Academia. Mas se a obsessão com o défice travou a economia nacional, também mata o Sporting pela anulação dos objectivos desportivos. Mais do que a impossibilidade de gerar mais-valias no mercado todos os anos de forma a cumprir as metas definidas no "project finance" - com Veloso e Moutinho o Sporting já garantiria mais dois defesos animados - terá sido a noção de que esse caminho matava a sede de conquista, pela desresponsabilização que trazia para a equipa de futebol, a levar os responsáveis a atalhar caminho.
Assim, começam a surgir notícias de que o Sporting tentará libertar 15 a 20 milhões de euros para gastar no mercado ou que a SAD poderá aproximar o orçamento dos de Benfica e FC Porto. Percebe-se a necessidade, até porque só para ficar com Izmailov, Vukcevic e Grimi quase se vai embora metade do investimento anunciado. Mas a entrevista de Pinto da Costa foi uma assistência perfeita, daquelas que deixa o avançado de baliza aberta, e em Alvalade ninguém a aproveitou.
Tal como o presidente do FC Porto já falou de Lucho, Bruno Alves, Quaresma ou Bosingwa, Soares Franco devia ter respondido a Pinto da Costa, confirmando aquilo que ele dissera: "Sim, João Moutinho é obviamente inegociável." A menos que não seja assim e a época que agora termina não tenha chegado para ensinar aos dirigentes do Sporting que o que precisam não é de gastar muito com jogadores novos, que podem dar certo ou acabar em fiascos. O que precisam é de guardar os que já têm e sabem que são bons.
AUTOR: António Tadeia, "Diário de Notícias", 03-05-2008
FOTO: www.sporting.pt