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O avançado brasileiro Liedson afirma que se emociona com a história do Sporting. Liedson que, por direito próprio, já está na história do futebol leonino, nomeadamente, por ser o melhor marcador da equipa nas provas europeias. Mas que tem muito mais a conquistar com a camisola verde e branca, agora que comemora 31 anos de vida. Ao registar 123 golos marcados, pode, por exemplo, ultrapassar figuras histórias do ataque do Sporting, em número de golos, como Yazalde, João Lourenço, Figueiredo ou João Cruz. Vem isto a propósito de outra grande figura do futebol sportinguista, que é talvez o colaborador do Sporting com melhor palmarés desportivo como jogador e treinador. Refiro-me a Mário Lino, que foi campeão como jogador e treinador, e que continua a ser campeão, agora como funcionário da Sporting SAD para o departamento de futebol jovem. Mário Lino que, ao completar 72 anos no próximo dia 9 de Janeiro, merece uma grande homenagem da nação sportinguista, por tudo o que deu ao Sporting Clube de Portugal e pelo exemplo que o seu trabalho como jogador, treinador e dirigente, ao longo de 50 anos, constitui para todos aqueles que trabalham no futebol do Sporting, em particular os mais jovens, que por vezes parecem desconhecer a história centenária do clube. Curiosamente, sendo um homem da casa, que sofria com as derrotas e se alegrava com as vitórias, Mário Lino também não foi bem tratado e teve que abandonar o "seu" Sporting para voltar mais tarde, após uma longa travessia no deserto, que foi ocupando com títulos como treinador ao serviço de vários clubes portugueses. A propósito, o LEÃO DA ESTRELA recorda uma entrevista de Mário Lino ao jornalista do “Sporting” Jorge Vicente, em 09-04-2008:
JORNAL SPORTING – Como surgiu a ligação com o futebol na sua vida?
MÁRIO LINO – Comecei a representar o Faial muito cedo. Estava a chutar umas bolas com os amigos num campo a que chamávamos o «maracanãzinho», e, no campo principal, ia jogar-se o encontro de juniores entre o Faial e o Atlético e, como faltou um jogador, vieram chamar-me para integrar a equipa nessa partida. Tinha 13 anos e foi necessária uma autorização para poder jogar com colegas três e quatro anos mais velhos. Representei o Faial durante quatro anos, inclusive na equipa principal, conseguindo muitas vitórias, pois era um «crónico vencedor» no Faial. Fui observado por um dirigente do Lusitânia, e, pouco depois, fomos fazer um jogo com o clube, na Ilha Terceira, e a minha prestação a médio ofensivo agradou tanto que nem voltei ao Faial. Tinha uma irmã a residir em Angra e a minha mãe, que veio comigo para visitar a família, ainda regressou, mas eu fiquei, o que despoletou um processo difícil de desvinculação, que durou alguns meses. Graças à exigência de compensação financeira pela minha saída, esta operação foi a primeira transferência nos Açores com dinheiro envolvido, com o Faial a receber 15 mil escudos, que, à época, era uma verba considerável, junta, em parte, por entre os associados do Lusitânia.
JORNAL SPORTING – E a passagem para o Sporting?
MÁRIO LINO – O luso-húngaro Janos Biri, antigo jogador e treinador do Benfica, foi para o comando técnico do Lusitânia, e com os seus conhecimentos e a qualidade dos meus colegas, o clube era dominador nos Açores. Foi também o mestre Biri que desempenhou um papel fundamental na minha vinda para o Sporting. Apesar de ter representado o Benfica, Biri aconselhou-me ao Sporting como forma de retribuir um favor que o major Lobo da Costa e Abrantes Mendes fizeram à sua família, durante a segunda guerra mundial, que se julga ter a ver com a vinda para Portugal durante esses anos. Em 1958, vim para a tropa para o Campo Grande, e Abrantes Mendes foi ter comigo à recruta, por indicação do mestre Biri, para vir ao Sporting fazer um treino à experiência. Vim e participei num jogo-treino frente a uma equipa da Força Aérea, vestindo, pela primeira vez, a camisola do Sporting, no dia 29 de Junho de 1958, numa partida particular com o Ericeirense, numa fase da temporada em que, terminado o campeonato, jogavam-se vários encontros amigáveis. Na altura, havia apenas duas formas de um jogador se desvincular de um clube sem a autorização deste, através do estatuto de militar ou de estudante. Como estava na tropa e a jogar no campeonato interno militar – representando a equipa da Força Aérea, ao lado de Fernando Mendes – consegui a desvinculação.
JORNAL SPORTING – Como foram os primeiros tempos ao serviço do Sporting?
MÁRIO LINO – O Sporting tinha ganho o campeonato de 57/58, onde não participei, iniciando a época, após o Verão, numa equipa que passou a contar com Hilário e Carvalho, jovens que, tal como eu, vinham renovar o sector mais recuado da equipa que deixara de contar com os «históricos» Caldeira, Pacheco e Galaz. Já jogara algumas vezes a defesa-direito e, perante este cenário, não hesitei em assumir a luta por um lugar no lado direito da defesa. Chegara aqui como médio-ofensivo, mas apenas devo ter feito um ou dois jogos nessa posição, ao serviço do Clube, pois havia a renovação na defesa campeã de 57/58 e era aí que devia entrar.
JORNAL SPORTING – Quais os momentos que destaca em 10 anos de jogador do Sporting?
MÁRIO LINO – Em quase 400 jogos pelo Clube, participei em vários momentos importantes, participando na equipa que brilhantemente alcançou a vitória na Taça das Taças. Tive o prazer e o orgulho de ter tido a oportunidade de fazer quase duas épocas com Travassos e Vasques, mas também com o Martins e o Hugo e muitos outros. Jogar ao seu lado, transpirar junto deles, foi um estímulo muito grande. Representei o Sporting, enquanto jogador, entre 1958 e 1968, mas, na última época, já acumulando a função de treinador de juniores. No último ano, jogava na equipa de reservas e depois orientava a equipa de juniores. Como jogador, fazia o papel de orientar a juventude que aparecia frequentemente para as experiências, sobretudo provenientes de África, até porque, na altura, não existia recrutamento no Sporting e vinham muitos atletas, já com idade de sénior, prestar provas do seu valor, a Alvalade.
JORNAL SPORTING – Após a grande época de 1973/74, deixa o clube. Como revive esse período?
MÁRIO LINO – Houve um desacordo em relação à preparação da equipa para a época seguinte e acabei por sair do Sporting, com o Clube a escolher Di Stefano como treinador. Saí contra vontade – e quando nada o justificava – mas fui para o Sporting Farense e orientei a equipa no último jogo de Di Stefano como meu sucessor, ainda antes da época começar. Tal como tinha previsto, a época não foi bem preparada, já que após terminar o campeonato, fizeram uma digressão longuíssima no Brasil, tiveram poucos dias de férias e fizeram outra digressão em Espanha. Após essas duas viagens – em que a equipa passou muitas dificuldades em termos de resultados – pararam em Faro, para o torneio e, pela primeira vez em que encontrei o Sporting no outro lado da barricada, o Farense venceu por 1-0 e, no regresso a Lisboa, Di Stefano acabou por deixar o comando técnico do futebol do Clube. A partir desse dia, iniciei o que chamo de «grande travessia», onde estive, durante 17 anos, como opositor do Sporting , representando, como técnico, o Sp. Farense, V. Setúbal, Sp. Braga, Portimonense, Boavista, Marítimo, Olhanense, Águeda, Beira-Mar, Peniche e Barreirense. Consegui bons resultados, com destaque para uma Supertaça «Cândido de Oliveira» pelo Boavista, ao FC Porto, em jogo disputado no Estádio das Antas, e várias subidas de Divisão. A «grande travessia» permitiu alcançar um currículo paralelo que me enriqueceu culturalmente, conhecendo, graças ao futebol, todo o País, estabelecendo contactos e apreendendo outras realidades completamente diferentes das que tinha no Sporting. Durante esse período, houve, por várias vezes, a possibilidade de regressar ao Sporting, mas tal só aconteceu em 1991, durante a presidência de José Sousa Cintra, com a possibilidade de optar entre os cargos de treinador de juniores – que, na altura, estava entregue a Fernando Mendes – ou de secretário técnico. Falei com o Fernando e optámos pela sua manutenção como treinador e fui para secretário técnico.
JORNAL SPORTING – Como se processou o regresso ao Sporting?
MÁRIO LINO – Uma das grandes alegrias da minha vida. Foram momentos de grande emoção. Existe, neste trajecto, uma coisa curiosa: todas as pessoas me apelidaram «o Mário Lino do Sporting». Estive em tantos clubes, mas sempre fui conotado com o Sporting, apesar de apenas ter mantido uma ligação de adepto e de informações esporádicas com o futebol. Em 1990, tínhamos perdido as quatro finais disputadas no futebol juvenil e, logo no ano seguinte, seguindo a máxima «10 meses de formação e um de competição», conseguimos três títulos nacionais. Durante três anos, recebera o convite da Direcção para passar para o futebol profissional, mas apenas não pude dizer que não em 93/94, durante o comando técnico de Robson e, depois, de Carlos Queiroz, regressando, novamente, ao futebol juvenil, com as entradas de Carlos Janela e Norton de Matos. Carlos Queiroz tentou persuadir-me ainda a ser treinador da equipa de juniores, mas já tinha decidido terminar com as funções técnicas no Sporting. Aquando da constituição da SAD, o futebol juvenil foi dividido, com as equipas de juniores e de juvenis a fazerem parte da SAD, ficando o responsável desses dois escalões na Sociedade Anónima Desportiva, em mais uma das muitas funções que desempenhei no Clube. De todas elas, do que sinto mais saudades é de ser jogador. A carreira de treinador foi, felizmente, também um sucesso, mas digo que pagava uma fortuna para poder voltar a jogar futebol. Foi o que me deu mais prazer e de onde guardo as mais fortes recordações.
BILHETE DE IDENTIDADE
Nome completo: Mário Goulart Lino
Data de nascimento: 09-01-1937
Naturalidade: Horta, Faial, Açores
Sócio do Sporting: n.º 2754
Estreia no Sporting: 29-06-58, numa vitória, por 5-0, no amigável com o Ericeirense.
Último jogo no Sporting: 02-07-1967
PERCURSO COMO JOGADOR:
1950-1954 – Faial Sport Clube
1954-1958 – Sport Clube Lusitânia
1958-1967 – Sporting Clube de Portugal
TÍTULOS COMO JOGADOR:
1 Taça dos Vencedores das Taças (1964)
2 Campeonatos Nacionais (61-62 e 65-66)
1 Taça de Portugal (1962)
3 Taça de Honra (61-62, 63-64, 65-66)
1 Taça de Angola (61-62)
4 títulos juniores da Ilha do Faial
2 campeonatos da Ilha Terceira
2 campeonatos açorianos
SELECÇÕES DE PORTUGAL:
6 internacionalizações A
1 internacionalização B
4 vezes internacional militar
PRINCIPAIS TÍTULOS COMO TREINADOR DO SPORTING:
69-70 – Taça de Portugal – treinador-adjunto.
70-71 – Campeão Nacional – treinador-adjunto.
71-72 – Finalista vencido da Taça de Portugal
72-73 – Taça de Portugal
73-74 – Campeão Nacional
73-74 – Taça de Portugal
73-74 – meias-finais da Taça das Taças
OUTROS TÍTULOS COMO TREINADOR:
76-77 – Finalista vencido da Taça de Portugal, ao serviço do Sp. Braga.
78-79 – Campeão nacional da II Divisão, ao serviço do Portimonense.
79-80 – Supertaça «Cândido Oliveira», ao serviço do Boavista.
83-84 – 1.º lugar na Zona Sul da II Divisão, pelo Marítimo.
88-89 – 1.º lugar na Zona Sul da II Divisão, pelo Peniche.
COMO CHEFE DO DEPARTAMENTO DE FUTEBOL DO SPORTING:
94-95 – Taça de Portugal
ALGUMAS DISTINÇÕES:
Diploma de Sócio de Mérito do Sporting Clube de Portugal.
Medalha de Ouro da Federação Portuguesa de Futebol.
Medalha de Prata da Câmara Municipal de Lisboa.
Prémio Stromp como “Treinador do Ano” 73-74.
Sócio honorário dos “Leões de New Jersey”.
Troféu “Rugido de Leão” 95-96.
Insígnia Autonómica de Reconhecimento pela Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores.