Não conhecia Pedro Sousa Moraes. Um telefonema de um amigo com larguíssima experiência futebolística, hoje retirados das lides, questionou-me quanto à possibilidade de entrevistar alguém que pretende candidatar-se à presidência do Sporting: um empresário com residência em Lisboa e na Costa da Caparica. Fiz-me à estrada com tudo em aberto, na certeza, porém, de que não iria encontrar, à porta do convento dos Capuchos, em S. João da Caparica, um candidato de V5 e apenas folclórico.
Pedro Sousa Moraes escolheu a sua quinta, sobre a riba da Caparica, de seu nome "Casa do Robalo", para se apresentar. Fez logo questão de subir ao terraço para nos mostrar o estupendo horizonte que vai do Cabo da Roca ao Cabo Espichel. E depois, sim, deu-se a conhecer.
Rapidamente percebi que estava perante um sportinguista com grandes tradições e de qualidade inquestionável. Nesse aspecto ninguém o pode acusar de ser um paraquedista, o que nestas coisas é sempre importante...
Com 51 anos, Pedro Sousa Moraes é um homem de bem com a vida, com sucesso aparente nos seus negócios (de Angola ao Brasil) e com uma rede vasta de amigos, muitos deles do universo sportinguista.
Filho de boas famílias, com raízes em Tortosendo (região centro), o novo candidato, aos 19 anos, já conduzia um Porsche, oferecido por um tio também com grandes ligações ao Sporting, e não gosta de falhar um jogo em Alvalade. E mesmo fora de Alvalade.
Contou-me até a história do dia em que, com amigos, foi ver o Salgueiros-Sporting que confirmou o Sporting com o campeão, quando chegou à Mealhada e só então percebeu que se tinha esquecido dos bilhetes em casa (Lisboa) – uma operação a pisar todos os limites de velocidade permitiu que todos vissem o jogo, embora só tivessem entrado já com este a decorrer.
Pedro Sousa Moraes tem um projecto para o Sporting. Quer criar uma fundação que seja capaz de, concorrendo a empreitadas com o suporte inicial de mecenas, consiga gerar receitas para aplicar no futebol e na vida eclética do clube.
"Quando os outros miúdos contavam carneiros para adormecer, eu fazia equipas do Sporting...", diz ainda sobre o seu sportinguismo, que estendeu aos quatro filhos, um deles a estudar no Porto.
Incomodado com alguns barões que residem há muitos anos no Conselho Leonino, que quer extinguir, e que não contribuem para o clube em nada, o novo candidato ao cadeirão de Alvalade integrou a lista de Sérgio Abrantes Mendes
"por pura amizade" e aí percebeu como é difícil lutar contra o sistema... interno. "Mesmo assim tivemos 25% dos votos", acentua.
Agora parece que é a sério. Pedro Sousa Moraes não acredita que Pedro Souto se candidate, acha ridículo que lance uma candidatura à condição e mais motivado se vai sentir para ir em frente se Filipe Soares Franco também for candidato, como acredita que será.
Pedro Sousa Moraes respeita o trajecto de Dias da Cunha, mas não deixa de fazer algumas críticas, nomeadamente à forma como alguns jogadores foram, no seu entender, mal vendidos. Presidente durante 8 anos do Núcleo do Sporting da Costa da Caparica, onde quis lançar um projecto pioneiro, tendo quase conseguido adquirir o espólio de José Travassos, Pedro Sousa Moraes apresenta também um estilo de liderança presidencialista.
"Serei eu e mais dez", diz, convicto de que terá de ser sempre ele a dar a cara, interagindo com o treinador, os jogadores e os sócios. Sócios que considera fundamentais para o futuro de um clube que vê ameaçado quando já se fala na extinção da figura dos mesmos, em detrimento dos accionistas da SAD.
O novo candidato quer ainda que o Sporting recupere o ecletismo que perdeu e é bem preciso quando identifica o principal rival: o Benfica. Enfim, gostei do que ouvi e senti pois é raro, nos tempos que correm, encontrar alguém tão entusiasmado com uma causa clubística, sobretudo alguém que podem podia aproveitar todo o seu tempo para desfrutar do sossego e da beleza da quinta do Robalo.
Eugénio Queirós, jornalista do “Record” e editor do blog Bola na Área (post especial para o LEÃO DA ESTRELA)