O futebol é uma indústria que movimenta muito dinheiro. Produz futebolistas para o espectáculo de um jogo que apaixona multidões, sempre ávidas de festejar golos, vitórias e títulos. O Sporting Clube de Portugal é uma das empresas dessa indústria planetária. Uma empresa com infra-estruturas adequadas e reconhecida em todo o mundo pela sua qualidade na formação de jovens talentos. Não é hoje, porém, reconhecida como uma máquina de produzir títulos. Mas essa é outra conversa...
Num mundo globalizado, os ricos tornam-se facilmente mais ricos e os pobres têm tendência a ficar mais pobres. É que o que está a acontecer hoje em Portugal, com o atrofiamento financeiro da chamada classe média e com os salários e lucros cada vez mais altos dos quadros de topo e das empresas que dominam a economia, designadamente as do sector bancário. O mesmo fenómeno está a verificar-se no futebol mundial, com os jovens talentos de vários pontos do mundo a serem adquiridos pelos maiores clubes europeus, onde estão os mais ricos e melhor preparados para rendibilizar devidamente esses talentos. Arsenal, Barcelona e Manchester United são três exemplos desses clubes ricos que atraem miúdos de todo o mundo, geralmente em prejuízo dos clubes de origem.
O Sporting é um clube com excelentes condições para a formação, e com provas dadas, mas é um clube limitado por pesados compromissos financeiros com a banca e, portanto, sem capacidade para investir na contratação de futebolistas de qualidade indiscutível, que no auge das suas carreiras têm propostas mais tentadoras em outras latitudes. E está num país pobre, cujo futebol não conta para o “totobola” europeu, não obstante o excelente nível alcançado pelas selecções nacionais nos últimos anos – mercê, também, do trabalho leonino na formação. Só que, essa formação não tem trazido para o clube os dividendos desportivos e financeiros que seriam de esperar: o Sporting não é a máquina de fabricar títulos que é, por exemplo, o FC Porto, e está mergulhado em dívidas, apesar de ter formado e vendido futebolistas como Luís Figo, Simão Sabrosa, Hugo Viana, Cristiano Ronaldo, Ricardo Quaresma, Emílio Peixe, Nani e muitos outros.
UM MERCADO SELVAGEM
Neste quadro, o trabalho do Sporting como clube formador e usufrutuário dessa aposta estratégica, através do aproveitamento do talento dos jovens futebolistas na equipa principal durante um período de tempo razoável, corre sérios riscos de fracassar, caso não haja, como não há, uma política de protecção dos clubes formadores de talentos, quer face a empresários mais dados ao lucro fácil, quer face ao poder de atracção dos clubes mais ricos. E a procura de talentos juvenis em outros continentes, que o Sporting tem promovido ultimamente, não parece ser a resposta adequada, a não ser em situações excepcionais, como comprovaram os casos dos jovens brasileiros Ronny e Yannick Pupo, que não conseguiram impor-se na equipa principal, apesar de terem sido rotulados de “craques” quando chegaram para a equipa de juniores. Além disso, essa prospecção internacional colocaria o Sporting a concorrer directamente com os maiores clubes do mundo...
Conforme o cenário está montado, e de acordo com o modo como este mercado selvagem funciona à escala global, os miúdos tanto aterram hoje no Sporting como, no ano seguinte, saem de Alcochete e são desviados para Espanha, Itália ou Inglaterra. Sem que o clube formador, atrofiado pela absoluta necessidade de dinheiro, seja devidamente compensado.
Ainda há relativamente pouco tempo, os jogadores Adrien Silva, Fábio Ferreira e Ricardo Fernandes, então nos Juniores B do Sporting, “fugiram” para Londres, seduzidos pelo Chelsea. Adrien Silva, que acabou por prolongar o seu vínculo com o clube, com a intervenção da família, reflectiu e voltou a Alcochete. Os outros dois não voltaram.
A CERTIFICAÇÃO DE QUALIDADE
Neste quadro, e tendo em vista dar protecção aos clubes formadores, o presidente do Sporting, Filipe Soares Franco, poderia encetar um caminho inovador, tanto mais agora que as cláusulas milionárias parecem também estar comprometidas. Como acontece em qualquer indústria, há produtos que obtêm a chamada certificação de qualidade, a qual obedece a diversos critérios. Ora, também no futebol faria todo o sentido criar a certificação internacional de qualidade para distinguir os clubes que investem na formação daqueles que apenas aproveitam o trabalho formativo feito por outros.
Neste sentido, o Sporting – que até formou Cristiano Ronaldo, que é considerado o mais completo jogador da actualidade – poderia emergir como defensor dos clubes formadores, lançando uma campanha mundial junto da FIFA pela criação de mecanismos legais que possibilitem esta certificação, que também poderia ser justificada pela globalização da economia e pelo imperativo de sobrevivência dos clubes mais pequenos, sem os quais continuará a aumentar o fosso entre os mais pobres e os mais ricos, prejudicando a indústria do futebol.
Se o Sporting Clube de Portugal é uma empresa da indústria futebolística que cria talentos para o futebol (e eles têm de ser criados sob pena de o futebol acabar como indústria lucrativa) e se o Sporting teve de investir em determinada estratégia, construindo uma Academia de Futebol, para ser uma empresa formadora de qualidade, então, a FIFA tem obrigação de defender as empresas que lhe dão a matéria-prima, ou seja, os jogadores, sem os quais não existe a indústria do futebol, concedendo certificações internacionais aos clubes que tenham determinadas condições consideradas essenciais para serem considerados “clubes formadores”.
VANTAGENS DA CERTIFICAÇÃO
O que é que o Sporting Clube de Portugal ou outros clubes formadores ganhariam com isso? É muito simples: um jogador que fizesse a sua formação num clube certificado internacionalmente como formador não poderia ser transferido antes dos 23 anos de idade, a não ser por acordo mútuo, mediante determinadas contrapartidas, nomeadamente cláusulas de rescisão mais altas, aumentando o peso negocial dos pequenos clubes, dando efeitos práticos às cláusulas de rescisão. Uma protecção deste género seria uma forma de compensar os clubes vocacionados para a formação, pois não só teriam a possibilidade de obter rendimento desportivo dos seus talentos na equipa principal durante, pelo menos, cinco anos, como afastaria dos clubes e dos jogadores as tentações inflacionistas dos empresários, assim como permitiria um amadurecimento programado e coerente de cada jogador formado. Por outro lado, ao serem compensados devidamente pela venda de jovens talentos, os clubes formadores teriam meios financeiros para ir ao mercado.